19 de jan. de 2015

Encher Linguiça.




A tudo dizem, cultura. E já se esquece o que realmente é, e já ninguém fala, ainda que todos nela se socorram para tudo. Tudo é cultura, alimentação, saúde, esporte, TV e pobre de quem rumine fora do cocho, porque as bocas se encheram até cuspirem espuma com expressões que comecem com cultura de... e que não queira saber como acabam, porque a variedade é ilimitada como a diversidade de gostos que são obrigadas a ter as linguiças, que as fazem com rúcula, provolone, muçarela, tomate seco, tanta variedade que me obrigam a pedir linguiça de linguiça. Com a cultura se dá o mesmo, e ao final nomearemos cultura cultura. Porque não quero conselhos para correr melhor, receitas de linhaça, nem análise profunda do último BBB, nem a lista dos bares da cidade com as melhores comidas de boteco.
A cultura fazia perguntas, fazia pensar, a praga hermenêutica não havia tomado conta de tudo, agora parece que querem nos dissuadir, os degustadores culturais, que enquanto como batata frita com creme de alhos, ele mastiga para mim a última novidade editorial, que leu em duas noites ou uma e enche uma long neck de adjetivos, para que eu possa falar algo, quando me perguntarem, você já leu? Sempre chegarei tarde, eles vão às pré-estreias, eu corro e como linhaça, saio com sacolas do Shopping, bebo cervejas artesanais, sempre tarde, porque a cultura se consome de pressa ou já vencida.
Temos que viver de alguma coisa e que se o ranking dos melhores coloridos ovos cozidos da capital... então percorremos a cidade apressados a ingerir ovos. Afinal devo estar em dia com o que interessa a todos e interessa a todos o que se faz agora não o que foi feito a dez anos, cem anos... e estão ai as listas de locais e as coleções de os dez melhores disso e daquilo, de conselhos dietéticos e estéticos, e polifacéticos, que fazem em conjunto uma bufa tribal.
A cultura pode ser estática, lenta, e atemporal, ou ainda, devia ser, não sei bem, mas aposto por isso. Assim pode-se ver um filme dos anos 80, ler um livro escrito em 1909,de um século, e não é um exagero meu, estou sendo muito preciso com o tempo, claro, se foram feitos com algo mais que a pressa, ou com o afã de estar no decálogo do momento. No entanto, nos confundimos, e tudo confusamente é cultura e é essencialmente consumo e preferentemente imediato.
Pode parecer que exagero, ou que estas linhas são brotos de sofisticação, mas não, é só abrir a TV, o jornal, os olhos e ver a encheção de linguiça.
O que quero dizer, e ainda que não pareça, que falamos de TV, de correr, andar de bici, ou de dietas milagrosas em meio a críticas de livros que não lemos, e ao lado da entrevista do escritor a lista dos melhores quitutes de boteco, afinal não sou obrigado a ler nada. Quero dizer que cada vez custa mais encontrar coisas legíveis, e as cervejas de mil gostos farão com que um dia esqueçamos que a base de uma boa cerveja é cevada e lúpulo, e que uma boa linguiça se faz com carne de porco. Se me queixo que os escritos são encheção de linguiça é porque tampouco a linguiça é feita como linguiça, resta saber do que são feitos os porcos.

.





Nenhum comentário: