5 de nov. de 2014

Café com Leite.



 Era inofensivo. Era parte da paisagem da nossa infância feliz. Não nos ocorria sequer de nos perguntarmos, por que ficava ali plantado, naquele cruzamento, que jamais cruzara. Talvez, por evidente, saudava os caminhões que ali passavam, na vinda e ida para Araraquara. Nos o olhávamos de soslaio, ríamos, era isso: ele se alegrava quando algum motorista tocava a buzina ao passar. Mas nunca lhe dissemos nada, não tivemos coragem. Centenas e centenas de crianças cruzavam aquele lugar a cada dia. Éramos descerebrados barulhentos e impertinentes, mas havia uma fronteira invisível que nenhum de nós ousou atravessar. Claro que nossa educação era justa, quase apertada. E ainda que em nossas casas não tivéssemos biblioteca, nem nunca tivéssemos ido ao teatro, sabíamos que aquele homem era 'café com leite'. Esta expressão adoçava a crueldade do mundo desde a nossa tenra infância. No futebol alguém do adversário gritava: ' Mas vocês estão em doze', logo alguém de nós gritava 'Ele é 'café com leite'', é evidente que 'Ele' se sentia aquele homem no cruzamento dando adeus a desconhecidos caminhoneiros. Era cruel...  e melhoramos?



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