19 de abr. de 2013

Oliver Twist. A menoridade. Um suave paralelo.


Oliver Twist.
Charles Dickens,
Ruppert von Wyk

Século 19, Inglaterra, um órfão do interior que sofre nas garras das instituições do governo para órfãos. Por querer mais comer é entregue ao coveiro, como aprendiz. Foge para Londres e se junta a um bando de trombadinhas, comandados pelo judeu Fagin, a ideia do judeu avaro é velha, talvez tenha sido tão bem aceita na Alemanha do séc 20, Fagin vive da exploração destes meninos que, a miúde, vivem a roubar, furtar pelas ruas de Londres. Oliver não quer se corromper, tampouco consegue fugir deste círculo de pobreza e criminalidade. Com o correr da história é ajudado por uma família, qual afinal pertence.
Trata-se da Inglaterra injusta, sem estado social, do século 19, com um direito liberal, feito para as classes dominantes, é deste substrato que parte Dickens, para retratar as mazelas da justiça no estado inglês.
O estado liberal transitava ao estado social, e portanto temos ainda um estado com imensa desigualdade social, fins do séc 18 para o 19.
Há dois pontos chaves do livro que se pode discutir, não é necessário traçar paralelismos óbvios com a realidade nacional.
O primeiro é a desigualdade social.
Outro é a exploração do trabalhador, no livro o trabalho infantil.
Naquele momento havia na Inglaterra, naquele momento, um aumento substancial da população urbana, os livros, em particular Oliver Twist fora publicado em capítulos, e Dickens tecnicamente utilizava o recurso de em cada final de capítulo, que à Sherazade deixa a obra suspendida, é o suspense, o que literariamente é o que nos prende ao final de cada capítulo e é talento de Dickens. Charles Dickens deixa plasmada na obra a sua crença moral entre o bom e o mau, o certo e o errado.
A vida boa, welfare state, vem como necessidade do fracasso do liberalismo do estado ausentado, rarefeito, da lei mantenedora do status quo.

No julgamento do menino Jack, Raposo, ou Matreiro, que encontrou e apresentou Oliver para a turma, pergunta no tribunal: Quem é você para me julgar?
Quem é você para me dizer o que bom e o que é ruim? Pergunta é feita ao Fiscal da Lei.
Fagin é apresentado diante do fogo, com um garfo, é feio, esconde dinheiro, a riqueza que tem a partir dos meninos ladrões, no entanto é quem dá, se é que exista ali, certa dignidade aos meninos. Comem, são respeitados, tanto é que por ocasião da prisão de Raposo, Fagin tem esperança que este tena oportunidade de demonstrar todas suas qualidades de ladrão.
Fagin ainda no julgamento assume o discurso das classes que recebem o tratamento diferenciado da justiça. Faz tese sobre o direito de roubar: se você não rouba, alguém roubará, assim Oliver deveria ocupar este espaço, Fagin.
Dickens não está a insuflar o furto ou dele faça apologia, mas diante das diferenças sociais tão gritantes, é quase a tese da desobediência civil, legitima defesa, porque são furtos famélicos diante da extrema injustiça social da Inglaterra vitoriana, a justiça a serviço de Sua Majestade, de meninos a trabalhar em reformatórios, tudo em nome de Sua Majestade.
Miséria pouca é bobagem.
Dickens faz critica direta ao Estado, ao sistema jurídico, do estado.
Rose Fleming e Maylie ao salvarem Oliver Twist, ficam em dúvida, entregam ou não o menino à justiça, mas decidem por não entregá-lo, porque os frios funcionários da lei não iriam entender, contextualizar.
Porque o Estado Liberal é absenteísta, deixa acontecer, e o que se vê no livro é a pouca diferença entre o que acontece com os meninos ingleses e os escravos em outras paragens do mundo, então, porque as leis, naquele momento, legitimavam a exploração dos garotos, para que pagassem seu sustento, e o pecado de Oliver é ser órfão e faminto.
Na obra se percebe no entanto que havia o clamor para mudanças, na direção de uma intervenção estatal no Estado ausente, portanto, Liberal.
Oliver, segundo o bedel Bumble, fica raivoso, por haver comido muita carne dada por seu patrão. É a ideia de que quem dá emprego faz um favor, mas a animosidade é a clara demonstração que a sociedade busca por rupturas.
O humor fica por conta do espanto dos ricos e gordos comilões ao se depararem com a vontade de comer dos pobres, se o estado lhes tem dado tanto para comer. Isso me lembra muito o episódio do Romanée Conti e a cúpula do governo petista, que gerou tanta animosidade dentro da classe média brasileira. Mas mais que isso, as classes dominantes se espantam ao se depararem com uma classe de desgraçados, mas que ainda quer viver.
Brownlow é a justiça, o homem bom, a justiça do homem bom, por que o judiciário não era confiável, por existir tão somente para preservar o status quo. O judiciário aplica a norma posta, a lei não quer saber de contexto.
O final é redentor, de vida no campo, tranquila e feliz.

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