15 de fev. de 2015

Plagio.

Plagio.

Os escritores de hoje querem ser originais, e todo mundo sabe que a originalidade é materialmente impossível. Há nesta obsessão, nesta ideia fixa, um ponto de hipocrisia que o atual sistema econômico deu a nossa vida social. Jamais o plágio foi considerado coisa criticável. Hoje é. Porque o escritor que o faz é considerado pelos companheiros como um homem que quebra as leis da cavalaria comercial. Cervantes foi o maior, plagiou todos os romances de cavalaria de sua época, sem contar o ''estilo''. Mas o argumento é inútil, já que se compreende que a única sina de um escritor é plagiar, e se demonstra com isso se tiver sobre o seu ofício umas ideias tão claras e seguras, que por força vencerá sempre os seus suscetíveis companheiros. Os antigos não faziam outra coisa senão plagiar-se mutuamente e sem trégua. E se o faziam, por que não podemos fazer? Não pode haver, me parece, algo mais agradável para um escritor sentir-se plagiado. No entanto, hoje, e em todos os ramos artísticos dominam ideias contrárias, e quem dá o tom são os ''coxinhas'', classe médias, analfabetos que sabem ler e escrever.
Essa é a degeneração geral a que chegamos, sem paradeiro, para constar e demonstrar a insanidade da literatura atual, não se encontra em lugar algum, algum troço digno de ser plagiado.

Eu procuro este troço faz tempo e por todos os rincões, e não encontro nada. Tudo é monotonia e dum tédio pantanoso, e eu, particularmente, nasci com pouca força para empreender um plágio de uma obra antiga, de um clássico. Sou obrigado, como os outros, a ser um terrível e desenfreado original. É não resta dúvida, lamentável e revoltante... 

13 de fev. de 2015

Famíliona


Familionã.

Casarei comigo Eu
Como filhos da mãe a mesma
Incesto, canhestro, a esmo
Economizaremos roupas e anéis
Chantilis e morangos
Gastaremos palavras palmas bem molhadas
Vinhos, cervejas, cachaças, cuspe e um bombom de rum
Camisas da Vénus! A incerta? Nunca!
Nem as dos dias seguintes
Nos livraremos de deputados e das putadas
Do congresso, da súmula,
Quê simula o STF?
O tabelião não verá um tostão
O gato fica pra mim,
se você morrer.
Já se eu morrer,
O gato fica sozinho.
Não tripudiaremos sobre cadáveres
A menos que deem vida a esses girinos,
Sa meleca
Que sem testemunha e
Se lavo bem a unha
E troco de cueca!




Plim! Plim!



Sortudos que somos,
tudo se demonstrou
que tudo, amanhã, será
bem demonstrado.

Nem molina nem peritos.
Não farão laboratórios,
papagaiada de periquitos
com ou sem repertórios
nem falatórios de sabujas.
Porca, gritaremos
chulas palavras sujas
para limpar esses nojentos
estes sábios fedorentos.

Sorte a nossa, se demostrou
que amanhã tudo será
demonstrado.

Estamos fartos de sabedorias
que no fundo, basbaquices
nos fazem crer teorias
nada senão manias
e disfarçam suas cagadas
pondo a culpa na manada
com plin plim de fadas

mas sorte nossa sorte
é que tudo se demonstrou
que amanhã se mais tardar
será bem demonstrado.






Cão e Gato



Há muito tempo, em casa havia uma gata que, que me recordo, deu cria uma vez numa dispensa nos fundos da casa, que naquele momento era fundamentalmente o lugar dos rejeitados. A gata, antes e depois, fazia a sua vida poucas vezes molestada por parte da família, exceção de minha irmã e, sobretudo, minha. Ia e vinha, passeava pelo telhado de casa e das casas vizinhas, mas não era amante da rua, que visitava em poucas ocasiões, certamente quando a liturgia da sua religião ancestral, que ignorava, lhe exigia. Me recordo de muitos episódios da vida da gata, que se misturam com os meus, mas sou incapaz de relembrar o seu traspasso.
Mais tarte tivemos um cachorro. Também não me lembro que fim levou. Mas com certeza um cachorro sem dono, me traz uma enorme tristeza. Assim sem saber o fim deles, somente o cachorro me cria mais problemas de consciência. O gato, e tenho um hoje, me parece mais inteligente, independente, e sua independência me faz tratá-lo de igual para igual, uma relação de igualdade. Se fosse um cão, pela minha maneira de ser, me custaria mais não abusar da minha suposta superioridade humana.

há algo, por que há algo?


Saio de casa com o tempo justo de chegar ao trabalho. Todo dia o mesmo caminho, com pequenas variações sugeridas pelos semáforos. Poucas novidades, de quando em quando, uma nova pintura, uma nova fachada, os interiores continuam incertos. Numa rua que ainda não consegui repetir havia um grafite, se preferir, uma pichação: “Acredito que há um mundo fora da minha cabeça”.

Trevo.

É sempre vou, num vou! Dilemas, enigmas a adiarem a decisão. Tudo é encruzilhada, um ípsilon dentro do outro. Se vou, vou não sei para onde, e sem parada. Se fico, como fico? E cedo ou tarde já é sexta -feira horas de quem parte, partir. É assim que decido: Me Atrevo a Contar com a Sorte!

12 de fev. de 2015

Cavo.



Se um poema, uma música comove, o faz desde da vida do leitor, ouvinte, de modos que uma pessoa que não seja ''culta'', se emociona com comprovar que aquilo que acaba de ler, ouvir, expressa algum aspecto da sua consciência, ou da sua vida. Constatação , ainda que atrevida, estendo a outras sensibilidades. Mais ou menos.
Muito embora, e às vezes, nos tornamos cúmplices de autores e obras, por motivos ainda mais prosaicos, como os geográficos, linguísticos, de gênero e étnicos, por que não?
São refúgios, e por vezes, construídos lá na infância. Costumo me refugiar num poema de Drummond, Áporo. Que dá a dimensão do inseto que cava e cava e cava...

é assim:




Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.