Uma forma de testar o grau de nosso provincianismo é : só dar valor às coisas próprias quando triunfam “lá fora”. O barato dessa assertiva é que tanto pode ser atomizada ao âmbito estritamente pessoal quanto expandida a volumes universais. Tá tudo dito acima, mas por mero exercício de digitação exemplifico, Eu só me vejo importante, quando “algo” ( pessoa, grupo, etc) me valoriza. Tom Jobim canta com “The Voice”. A ONU vê “ x” como exemplo a ser seguido, logo… Sanders fala o que sempre se falou por estas bandas, então agora estamos autorizados a continuar nossa luta...
14 de fev. de 2016
13 de fev. de 2016
O Espelho Real é o Outro.
O espelho é o outro.
O senhor S não havia frequentado gastroproctologista , aos seus 50 anos. A primeira vez, ali na sala de espera a ler naqueles diplomas e títulos sempre o mesmo nome. Não lhe era estranho. Ele apreensivo, como sói as primeiras vezes. Ao entrar no consultório concluiu que aquele velho, de palpebras caidas, cabelos brancos e ralos, não poderia ser seu colega de classe do Otoniel Mota, no colegial de 1975. Findo os toques e retoques sempre necessários, ali sentados frente a frente, e para sanar de vez sua dúvida perguntou: “Você fez Otoniel em 77? “. “Sim, terminei o colegial em 77.” disse S:“ Puxa vida, estivemos na mesma classe!” “ Ah! É! E o Senhor dava aulas de que?”.
8 de fev. de 2016
Dolly, Mundo Clone.
Um Mundo Uniforme.
Nascemos originais, morremos cópias, Carl Jung. Pode parecer que tenha uma pulga de exagero a afirmação do psicanalista, mas a verdade é que vamos, no caminho de nossa vida, nos fundindo num magma uniformizador e medíocre. Tudo que nos cerca contribuí, os meios sejam, noticiosos, publicitários, culturais, a arte em particular - salvaguardadas as raridades, gostamos em massa do mesmo - os carros têm o arco iris cinza, o sistema educativo, o trabalho, o calendário - de dezembro ao Carnaval é tempo de… - . A vida assim pautada nos leva de únicos a clones. Tirante os buracos, se bem que todas as cidades brasileiras têm buracos, as cidades perdem sua personalidade, mas ninguém percebe, parece que está bem. O mais raro é ver que o esforço para se diferenciar nos iguala. As lojas do centro são as lojas do centro de qualquer lugar, as mesmas marcas. Nosso picolé, o famoso pau gelado é paleta, aqui, na Europa… As lojas chinesas de baixo preço para produtos inúteis são os Bazares chineses em Barcelona. As mesmas boutiques e as mesmas vitrines. Chegará o dia que os viajantes perderão o gosto por viajar, os food trucks, as comidas terão o mesmo gosto, os cheiros e as mesmas paisagens. Mas isso nos diz respeito, já passou o tempo da crítica ao consumidor, pois agora já somos consumidores-ovelhas em rebanhos. Certa feita, alguém, ineludível, justificava comer McDonald em Espanha, porque ao menos se sabia o sabor. Pergunto, sabe a quê? Enfim, como a consciência é o que faço, a cidade é uma franquia, e minha consciência é a franquia duma outra ovelha-consumidora, ela também Dolly.
7 de fev. de 2016
Poema: Über die Schwierigkeiten der Umerziehung. Hans Magnus Enzensberg, Das dificuldades na reeducação.
Über die
Schwierigkeiten der Umerziehung
Einfach vortrefflich
all diese großen
Pläne:
das Goldene Zeitalter
das Reich Gottes auf
Erden
das Absterben des
Staates.
Durchaus einleuchtend.
Wenn nur die Leute
nicht wären!
Immer und überall
stören die Leute.
Alles bringen sie
durcheinander.
Wenn es um die
Befreiung der Menschheit geht
laufen sie zum Friseur.
Statt begeistert
hinter der Vorhut herzutrippeln
sagen sie: Jetzt wäre
ein Bier gut.
Statt um die gerechte
Sache
kämpfen sie mit
Krampfadern und Masern.
Im entscheidenden
Augenblick
suchen sie einen
Briefkasten oder ein Bett.
Kurz bevor das
Millenium
anbricht kochen sie
Windeln
An den Leuten
scheitert eben alles.
Mit denen ist kein
Staat zu machen.
Ein Sack Flöhe ist
nichts dagegen.
Kleinbürgerliches
Schwanken!
Konsum-Idioten!
Übereste der
Vergangenheit!
Man kann sie doch
nicht alle umbringen!
Man kann doch nicht
den ganzen Tag auf sie einreden!
Ja wenn die Leute
nicht wären
dann sähe die
Sache schon anders aus.
Ja wenn die Leute
nicht wären
dann gings ruckzuck.
Ja wenn die Leute
nicht wären
ja dann!
(Dann möchte auch
ich hier nicht länger stören.)
Hans Magnus
Enzensberger,
tradução livre.
dificuldades para reeducar.
Sensivelmente
magníficos
todos
esses grandes planos:
a Era dourada
a Era dourada
o
reino de Deus na terra.
A morte do Estado.
Obviedade ululante.
A morte do Estado.
Obviedade ululante.
Se
não houvesse essa gente!
Sempre
e em todas as partes a estorvar.
Tudo
vira imbróglio.
Quando se trata de libertar a Humanidade
vão ao cabeleireiro.
Ao invés de seguir entusiasmada a vanguarda.
Dizem: agora é hora de beber um chopp.
Em vez de lutar pela causa justa,
Quando se trata de libertar a Humanidade
vão ao cabeleireiro.
Ao invés de seguir entusiasmada a vanguarda.
Dizem: agora é hora de beber um chopp.
Em vez de lutar pela causa justa,
a
lida agora é com as varizes e o sarampo.
No momento decisivo,
No momento decisivo,
procura
uma cama ou a caixa de correio.
Pouco
antes do nascimento do Milênio,
hora de comprar fraldas.
hora de comprar fraldas.
Tudo
fracassa por culpa das pessoas.
Não servem para grandes alardes.
Um saco de pulgas não é nada, se comparamos.
Vacilos pequeno burguês!
Não servem para grandes alardes.
Um saco de pulgas não é nada, se comparamos.
Vacilos pequeno burguês!
Idiotas
consumistas!
Sobras do passado!
Sobras do passado!
E
não podes matá-la!
Nem
convence-la, o tempo todo.
Se
não fosse essa gente,
a
coisa seria bem diferente.
Se
não fosse essa gente,
ai
sim, era vapt vupt, então sim!
(então eu tampouco queria estar estorvando)
(então eu tampouco queria estar estorvando)
Muito rápido para uma curva tão fechada.
Muito rápido
para uma curva tão fechada. JJ cai com sua Yamaha 535cc dois
cilindros numa ribanceira, logo na saída de Altinópolis. Poucos metros atrás vem seu irmão
M numa velha Guzzi 599 cc 8 cilindros e encontra JJ estendido no
chão no meio de uma poça de sangue, JJ lhe diz que , se
não escapar desta, quer ser enterrado com sua jaqueta. Foram
suas últimas palavras.
No dia seguinte os
membros do Rider a Suck nos reunimos para o funeral de JJ. Pouco
antes da cerimonia M convida a todos a beber. Parece mais um pub
irlandês que um funeral, cada um com uma Heineken em poucos
minutos esgotamos as duas caixas, rimos, choramos e contamos
histórias de JJ. M suspira, “JJ ia gostar disso”.
M e outros três
carregam o caixão até o cemitério, quase deixam
cair o caixão quando desde seu interior soa Born to be wild de
Steppenwolf. É tom do celular de JJ quando lhe chamavam. O
celular havia ficado no bolso da jaqueta. Um dos carregadores, com
tremedeira nas pernas vomita toda a cerveja que havia bebido sobre a
lápide. Nem M pode segurar a gargalhada. O toque não
demora a parar e o ataúde é baixado.
Em casa fico até
tarde vendo um filme pela televisão. Começo a pescar no
fim do filme, decido não ver o final e vou dormir, com uma
ideia que faz 'cosquinhas' na minha cabeça dormente. Pego o
celular e ligo para JJ. Um toque, dois, no terceiro se ouve um ruído:
- JJ...Sou C, e daí
véio? Sempre quis saber se realmente tem algo Além.
Sim... é só curiosidade.
6 de fev. de 2016
Internet, e a Geopolítica nas artes.
Internet, e a
Geopolítica nas artes.
Há sem dúvida
um local, no tempo, para a arte. Paris sempre foi centrípeta,
atraindo artistas de todo o mundo, desde há muito, mas no fim
do dezenove e começo do séc XX virou obrigação
estar lá para ser 'alguém'. Mesmo sem nunca ter posto o
pé em New York, sei de bairros que concentravam a vida
artística da metrópole do império mediático,
Greenwich Village, Soho, Tribeca, Union Square eram nutridos e
nutriam 'Studios' e artistas. Como Montmartre e Montparnasse, onde
pus os pés mas a cabeça não creio, ligados pela
linha Nord-Sud desde 1910, não foi diferente. No entanto,
hoje estes bairros se tornaram, principalmente em NY, reduto de gente
muito rica, o que pode incluir artistas, ricos. Aqui, me parece que
os artistas foram defenestrados dos seus bairros boêmios. A
arte virou profissão? Antes, me parece, era um modo de vida
que gerava uma arte, hoje, uma arte que gera um modo de vida. A
Boemia paulistana, carioca, ribeirãopretana... estão no
Shopping Center, nos condomínios de baixo e alto padrão.
Isolados do mundo, quero dizer, do mundo problemático, que
sempre foi o substrato da arte. A arte nunca foi bem-comportada,
pode-se dizer que efetivamente não fosse subversiva, em
absoluto, mas caseira, absolutamente, como Chiquinha Gonzaga, Mario
de Andrade, Millôr... nem mesmo Nelson Rodrigues, ou Manuel
Bandeira que por muito tempo teve logos num sanatório.
De repente penso em
Jorge Luis Borges, não o primeiro, mas certamente um dos
primeiros criadores de arte com fundamento tácito e explicito
na informação, escrevendo a respeito do que lera, é
o mestre a ser seguido, porque dá a dimensão do que se
pode fazer tendo como substrato o já feito, como matéria
prima, é o que fez com Quijote e Odisseu, e se não
bastasse com Homero.
Na música
brasileira houve um claro 'apartheid' dentro de sua produção,
sem que isto queira dizer, que houvera uma mistura, mas um contato
produtivo entre as variadas formas musicais, sim, e que conste: o
fornecimento de matéria prima sempre foi mais frequente e
intenso da mais popular para a menos popular, como fica explicito, e
explicitado verbalmente por Villa-Lobos, no caso do “Choro”.
Desta forma, o que
vemos e ouvimos hoje é a luta solitária da periferia
para erguer uma obra musical, enquanto outros expoentes ruminam
sobre o já feito.
Acontece que a internet
ganhou força, suas redes sociais, acabam por colocar em
contato, virtual, uma variedade de espécies. Por hora, há
muito ódio, e o entrelaçamento me parece exíguo,
frente ao que se poderia construir, mas creio que passado esse
estranhamento, algo florescerá. Afinal sempre foi assim, os
artistas têm essa afinidade com os problemas, de onde esculpem
obras de vertigem.
Assassinatos, Romance e a vida como ela é.
Assassinatos.
Se as técnicas
cirúrgicas não tivessem evoluído
exponencialmente o número de homicídios teriam também
potencias elevadas. Fica claro, que a maior parte das tecnologias
evoluíram muito mais que a moral. O que me chama atenção
tem sido a falta de arte nos crimes e sua banalidade, sua quase
desrazão. Frente a outros países, sempre me pareceu,
que fomos mais criminosos. Do ponto de vista social do assassinato, a
justiça brasileira sempre mirou no cadáver e não
no assassino. A origem e a etnia do morto, davam e dão a
direção, o sentido e a velocidade do inquérito
policial. Dessa forma o crime sempre foi banal em nosso país,
sempre que o morto seja um zé ninguém. Talvez venha
disso nossa pouca desenvoltura no ramo do romance policial. Por
outra, outro motivo é e foi a técnica empregada no
assassinato, seja, nenhuma. Mata-se. Não há arte,
porque não há planejamento. O crime se dá de
supetão, quase sem querer, como um tropeção numa
pedra. Se se quer o dinheiro dos pais, mata-se os pais, de tal modo
que qualquer seqüência lógica e cartesiana de
elucubração, sem nenhuma sofisticação, se
chega ao ou aos criminosos.Insulina, venenos, metais pesados... não são usados, os crimes são praticados com revólver, marreta, faca, boné ou uma mascara qualquer. A falta de conhecimento é
fundamental para que seja como é, alem da preguiça,
porque uma boa pesquisa, nos dias atuais, levaria a se planejar
melhor, podendo até se levantar suspeitas, principalmente em
se tratando de receber seguros de vida, pois há um pacto
tácito das seguradoras com a policia, de maior empenho nestes
casos.
Eu suspeito que seja da
natureza humana o desejo pelo ilícito, por isso há
sempre, quando se vem do passado para o futuro, um aumento da
criminalidade. Como já disse, a técnica e a moral
progridem com diferentes velocidades. Lembrando meu
curso de Vetores, muitas das vezes, têm sinais inversos.
Por fim, o que era para
ser uma irrupção inesperada num mundo ordenado, o
assassinato acaba por ser conseqüência natural do modo
como vivemos.
Não se trata aqui de preferir um modo de vida
ou outro, no sentido de uma nostalgia da merda, pratica corriqueira
das gerações, só uma constatação,
e escrever um romance policial seria descrever universos opostos. Uma
vez, que existem muitos casos no qual um morto, antes de morrer, se
atira na direção do projetil, e por vezes, faz isso
mais de uma vez.
Assinar:
Comentários (Atom)