16 de dez. de 2015

Eu não gosto de cebola....sendo que talvez a cebola é quem pudesse dizer que não gosta de mim.

Eu Não Gosto de Cebola.

Outro dia ouvi uma menina dizer, “Antigamente...”, nada mais ouvi, sou curioso, mas não pude ser intrometido, por muito muito que quisesse saber o que vinha depois. Desse modo, antigamente pode ser ontem. No entanto, antigamente, para mim, é quando não havia nem eu, nem rádio, nem tv, nem gramofone... se lia partituras, se contavam contos, a volta do parafuso começa assim. Frankstein de Shelley nasceu assim. Dizem que num verão suíço, na Vila Diodati, havia muito talento debaixo do mesmo teto, Lord Byron, seu médico John Polidori, John Shelley e Mary Shelley, chovia há dias, o tédio andava rondado a casa, então, Byron sugeriu que escrevessem cada um um conto de medo. Dizem que John preferiu continuar matando o tédio com absinto. Byron deixou o conto no meio do caminho, sobre mulheres vampiros da Grécia. Polidori sem mais escreveu O Vampiro, não perdeu tempo para um título, história do dandy irresistivelmente atrativo e perverso manipulador, deixando claro que refletia sua relação de amor e ódio com Byron. Mary Shelley escreveu O Moderno Prometeu, o famoso Frankenstein.
Zequinha de Abreu vendia partituras de Tico-Tico no Fubá, fazendo quem quisesse ouvi-la, ler partitura, tocar algum instrumento. Disse Zequinha, mas havia muitos compositores, como Chiquinha Gonzaga, para ficar nos mais populares. A relação com a arte, em particular com a música era corpóreo-espiritual, exigia todo o corpo e a alma. Essa relação mudou drasticamente, fazendo do ouvinte uma mera orelha manipulável. O tema é imenso, mas fico nisso, que não estou preparado para um ensaio, fico nessa crônica. Mas a coisa se deu da mesma forma que na relação homem-natureza. Há pessoas tão jovens que não têm antigamente, que não sabem de onde vem o bife, tanto menos o Baião. Os livros se transformaram em imagens, filmes. A música vem da saveiro que passa toda noite pelo bairro a despertar galinhas, assustar gatos. Suponho que uma família rica de antigamente tivesse umas 100 partituras e um piano. Hoje, no pen drive do meu fusca tem todas as músicas que ouvi e gostaria de ouvir nos próximos dois mil anos.

É neste ponto, quando se disse que tudo quanto fosse sólido se desfaria no ar, que chegamos. Qualquer relação entre nós e a arte, ou qualquer outra atividade, nada nos esclarece sobre nós, senão que nos obscurece, posto que todos os complexos sentidos que tivemos para apreciar qualquer coisa se reduziu ao gosto preguiçoso e irremediavelmente ignorante. Eu não gosto de cebola....sendo que talvez a cebola é quem pudesse dizer que não gosta de mim.

receita.


Cebola empanada.
Dissolva fermento biológico em sal, acrescente água gelada, pode até botar umas pedras de gelo, acrescente farinha de trigo, faça uma massa espessa. Passe por ela as rodelas de cebola. Não deve escorrer facilmente. Leve a uma frigideira com abundante azeite. Frite. Coloque para escorrer excessos num papel absorvente.

Microconto.

“Quando acordei, o dinossauro ainda estava ali”.de Augusto Monterroso. 
“Sabia que estava sozinha no mundo, de repente, batem na porta”.
São contos brevíssimos bastante conhecidos. Gostei também do conto gótico de G.L.Frost, ainda que li em algum lugar que não queria, mas esqueci, aonde atribuíam - esse de bater a porta - sua autoria a Borges.
 Como sou leviano tomei a liberdade de mudar um pouco o começo, o meio e o final. E gostei mais desse jeito: Um disse para outro: Esse lugar dá calafrios. Você acredita em fantasmas? Pergunta o um, enquanto o outro diz não e desaparece.


Fechou o bar do Mané ou Hitler não fumava, Médici não fumava, Geisel não fumava, mas a cobra fumou




Fechou o bar do pernambucano Mané. Meu bar. A verdade é que me sinto desamparado, é mesmo uma sensação de desamparo. Me sinto um Homer, se o Moe fechar. Um ET apontando com o dedo para onde estava o bar – agora um açougue gourmet, pode? - e exclamo 'meu bar, meu bar' com voz lastimosa. Lembro de quando começou a lei antitabagista, e Mané, que fumava, me perguntou, eu que fumava, o que dizer àqueles, digamos manés, que queriam um cartaz de proibido fumar, eu disse que fizesse um aonde constasse o nome dos merdas metidos a bestas bonfinenses que morreram antes por pura sovinice e ignorância  e não fumavam e fui dando nome aos bois. Não seria nem louco de botar o nome de algum aqui, ainda que saiba dos herdeiros analfabetos, mas tem sempre os puxa-sacos que leem para os patrões, escrevem para os patrões, vigiam pelos patrões, chacoalham para seus amos...   Então para não correr risco de morte, ficaria assim transportando da ideia paroquiana inicial: Hitler não fumava, Médici não fumava, Geisel não fumava, mas a cobra fumou. Vou parando por aqui que comecei a misturar nostalgia com horror.  

Para que serve um amigo?

Para que serve um amigo?

Imagino que algum purista dirá que a amizade não serve, que cada um há de servir a ela, ou algo assim, aparentemente sublime, mas falso. Quero que meus amigos me sirvam. Quero, ademais, que sejam a medida de meu valor. Quero me conhecer conhecendo a eles. Quero, ainda, confirmar neles – já que me concedem sua amizade - que  algo bom vêem em mim. Pois bem, entre os amigos que mais me valem está o entranhado José Carlos..

Zé, como sinto saudades, de nossas conversas sobre o ser e o nada pelas ruas de Sousas ou sobre o divino do humano e o humano do divino pelas noites de segunda junto ao fogão. Se alguma vez nos esquecermos de que somos amigos, encontrarei em nosso esquecimento um sinal inequívoco de que perdi valor.   

15 de dez. de 2015

Quando eu vi Deus.

Todos sabem que sou ateu, de poltrona reclinável. Mas nunca contei que numa de minhas subidas de Ubatuba, pela estrada das curvas, me apareceu Deus. Subia a serra, estava completamente nublado lá embaixo, no entanto, de repente toda neblina desapareceu, o céu se vestiu de azul homogêneo, luminoso e próximo. Parecia que se quisesse sair do carro e subir na ponta dos pés, poderia com o braço levantado com a mão alcançaria o cosmo, inteiro. Tocava isso Soneto de Petrarca 104 liszt E foi o que fiz, foi incrível, me sentia parte de todo o universo, como se estivesse no meio de uma floresta, ou dentro do mar, perto da lua, ao lado de marte, da Ursa Maior, da Via Láctea. Sentia a expansão, a velocidade e a música universal.



Maurice Tillet, o Ogro em carne e osso.


Se chamava Maurice Tillet, apesar de seu aspecto tosco, falava 14 idiomas, era poeta, ator e um grande enxadrista, mas se fez famoso como peso pesado no Pressing Catch, aonde foi campeão mundial.
Aos 20 anos desenvolve a enfermidade da pituitária(hipófase), conhecida como acromegalia, - como Rondo Hatton –
que desfigura as feições, dando ao sujeito aparência ogro simiesca. Maurice decide interromper os estudos de direito e imigra para os Estados Unidos atrás de uma profissão mais de acordo com seu físico. Se converte em lutador profissional, O Anjo Francês, ou o Ogro do quadrilátero. Seu 'abraço de urso' não encontra rival na lona. Em 1944 derrota Triturador Casey, e se torna campeão mundial pela AWS.




Depois dos combates gostava de jogar xadrez com amigos, como Francis Scott Fitzgerald e Charles Laughton. Assim chego a Schrek. Que evidentemente se inspirou em Maurice, um ogro de aspecto amigável que recordasse uma pessoa sensível, como Dave Sheridan – desenhista – definiu sua personagem.


Íncubo!

Faz um monte de tempo, mais precisamente, logo depois do divórcio, convidei para jantar em casa os amigos Jão, Serguey, Aninha. Jão me ligou na noite anterior, Cidão, se importa se levo minha prima Suzane? Matutei, já começaram a me arranjar noiva, ele continuou, Ela está passando uma temporada em casa. É professora do Estado e lhe deram um afastamento psiquiátrico. Pobrezinha, não me espanto, assim como anda nossa educação. Te aviso que ela é especial. Ao ouvir especial, vindo do Jão, todos os alarmes dispararam. Como especial? Ela diz que à noite é visitada por um íncubo. Íncubo? Não havia google ainda, mas Jão me explica que é um espectro masculino que faz sexo com mulheres. Para quem ficou interessado há o súcubo, que são as mulheres que fazem com os homens. Ademais, ela gosta de contar, mas é inofensiva. Isso me tranqüiliza. Serguey e Aninha foram os primeiros a chegar, e os adverti para o caso de nossa convidada extra. Bom também! comentou Serguey, assim não faltará assunto. Logo depois chegou Jão. Só. Nos olhamos entre todos. E logo ele esclareceu que ela tinha médico e que já vinha, sim. Tocou a campainha, dei uma olhada pelo olho mágico, uma bela morena, pra lá de gostosa, de uns trinta e cinco anos. Tudo parecia normal até que ela começou a falar com a bolsa. Tenha juízo, dizia, não me faça passar vergonha. Pardelhas! murmurei, acabava de ler Ulisses por Houaiss. Na verdade durante o jantar, pimentão vermelho recheado com alho poró e bacalhau, e creme de pimentão verde para secundar, Suzane fora muito agradável. Não falava muito, mas tinha um riso musical – meia oitava – já na sobremesa chegou o momento que nos contou de seu incubo. Primeiro aparece só meio corpo fora da parede e me olha e eu estou deitada na cama numa espécie de transe, Serguey e Aninha trocavam soslaios. Depois vem até mim com um sorriso de orelha a orelha.
Isso me deixou inquieto, imagine um fantasma que se apresenta com um sorriso radiante como o gato de
Cheshire... Vem se aproximando e se deita a meu lado e sem deixar de me olhar fixamente, e... me..., me....
Te fode? Interveio Jão com olhos indulgentes de quem já ouviu a história antes. Me possui, corrigiu Suzane, meio enjoada. Aninha se aventurou... nunca pensou em mudar de casa? Me mudar? Parecia realmente surpreendida. Se estava criando uma tensão ... mas Suzane... Você sabe o bem que me isso me faz?

Serguey e Aninha estavam envolvidos por um estupor leitoso, atordoados, sonâmbulos que resistem a acordar. O ar estava parado, perguntei, alguém quer café? O ar se mandou a outra parte a cuidar de seus assuntos.