29 de jul. de 2016

A importância de ser Mané.


(A importância de ser Ernesto)


Joana estava apaixonada por um português chamado Manoel. Viviam no primeiro andar, ao lado de um homem, ou uma mulher, cujo costume de deixar as janelas abertas a irritava. Como todas as manhãs se olhava no espelho, se lavava o rosto, media seu pequeno buço, saia sempre apressada ainda bebendo seu yakult. Tomava o circular, porque odiava conduzir. O escritório ficava a uns trinta quarteirões, mais ou menos. Na volta, aproveitava para fazer pequenas compras, jantava com Mané enquanto lhe contava coisas do seu dia de trabalho.
Nos momentos livres, reflexionava sobre a profundidade do oceano, que nenhum ser humano jamais viu, estranhava que se tivesse ido a lua, mas nunca ter ido ao fundo do Pacífico ou Atlântico; imaginava o mundo visto cada vez mais de longe, até que ela e Mané eram um ponto na cidade, a cidade um ponto na terra, a terra um ponto no sistema solar, o sol um ponto no espaço cheio de estrelas.
Lilian e Mané gostavam de ouvir música suave, bossa nova, e que fosse suave não era razão para que sua vizinha, ou vizinho, não se queixasse de qualquer modo, e o fazia com gosto. Outras vezes iam visitar suas irmãs em Pirassununga, ou comiam maçãs verdes.
Quarta-feira, recebeu um telefonema urgente no trabalho. Quem falava era uma voz feminina ou masculina, e lhe disse que havia escutado ruídos, e que ao que parece haviam forçado a porta e haviam entrado na sua casa. Ela, ou ele. Já se encarregara de chamar a polícia.
Então, Lilian correu, e nem sequer pode sentir o intenso cheiro de pão de queijo da padaria, nem saltar lajotas ausentes na calçada, nem sentir o calor exagerado que fazia no ponto de ônibus, que era um pau fincado, só lhe parecia uma coisa, o caminho era quatro vezes mais longo que sempre.

Já perto de sua casa, uns pedreiros almoçavam sentados na calçada, enquanto assoviavam e lhe dirigiam gracejos. Nesse momento começou a procurar no fundo da bolsa as chaves, mas se deu conta que a porta poderia estar arrombada, seu apartamento estaria todo aberto; foi quando divisou um policial e o senhor, ou a senhora, à espera na porta do edifício. Quiseram tranqüilizá-la, ela subiu as escadas de dois em dois degraus, e de cara o que viu foi que estava tudo remexido, a fechadura arrombada, e que sua habitação estava despojada de sua essência, Mané jazia no chão da cozinha. 

26 de jul. de 2016

Verte Pus a República.

Verte Pus a República.
O Tumor é de Castas.
Pústulas Malignas.
Feridas sem Sutura,
Insultos, Abismos
Abertos desde os Indígenas.
Sangue que se Esvai.
Tal Falaz Lacuna Impregna
de Desprezo as Almas
com Ódio ao Raciocínio.
Sem Entender a Profecia
de Profetas
da Guerra Contra Si Mesmo.
Terra Colorida de Iris Tintas
se Se Aboliu a Escravidão
ao Limbo da História
Por que Somos Escravos Fintas
dessas Inimizades Ilusórias?
Será que Algum Dia
Acenderemos o Sonhado Cachimbo?



25 de jul. de 2016

Hoje, olhando sua foto, me achei frágil,


Hoje, olhando sua foto, me achei frágil,
como um barco de folha de jornal n'água.
Enfeitiçado pelo ouro de seu cabelo vágil.
queria te violar como uma margem mágoa.

Com carvão assinava cadáveres no muro
imprimia palavras mesozoicas, extintas.
Palavras que regressam vivas, juro
asfixiando meu passado, sombras sucintas.

Ontem dormia na minha a tua mão
eramos cavalos impossíveis de atar
trotávamos por cima de nossa razão
beijava teus lábios salgados de mar.

Amanhã, perdido, pensarei teu braço pálido
relincho e esfrego no moerão até sangrar
navegarei no papel machê do jornal lido.
Haverá, quiçá braço desconhecido por singrar.

Não me resta mais presente, dó
parede pintada de umidade
desígnio do destino, voltar ao pó.


23 de jul. de 2016

Emagreça com Kant.

Emagrecer com Kant, pode parecer uma ideia de jerico, mas não é, além disso a sua prática nos torna mais éticos e livres. Em todo caso, e na verdade,  não se pode levar os fundamentos, os imperativos kantianos às últimas consequências, que senão o consumismo diminui e muito, e não sei o que aconteceria, caso isso acontecesse, e não sei se quero isso.
 Basicamente, Kant nos diferencia dos animais pela razão ( que é uma lei autoimposta)  e pela dignidade humana. Introduz para isso  o conceito de  Autonomia versus o de Heteronomia. Onde autonomia é fazer segundo a lei autoimposta que é a razão, e heteronomia é fazer pelo outro, pelos fins, ou uma inclinação – incluso você –  assim exige, indica, sugere. O problema, que na verdade é a solução da obesidade, entra aqui: ser autônomo é fazer o que você quer e é moralmente um dever   e não o que quer os desejos as inclinações e impulsos e instintos e os fins sugerem, exigem, indicam. É o ser racional e moral, em pleno gozo e uso da razão e da moralidade que diz “não” aos impulsos, instintos, aos fins animalescos que o habita.  Roberto Carlos está parcialmente correto ao dizer que … o que mais gostamos ou é imoral ou engorda. Na verdade engorda por imoral, assim todo gordo é imoral. A obesidade é uma imoralidade do ser. Atente para o fato de que exceções, neste caso patológicas, sempre estão contempladas em toda generalização.  Assim não há porque comer, se não se tem fome. Pode-se dizer e diz-se que estava agoniado, ansioso, mas isto já não é você, um ser racional e livre, diz sim, de um animal que foi abandonado – no ocidente, que não sei onde começa e acaba  realmente, há vários ocidentes – antes e com a tragédia grega, muito antes da Liga de Delos. Há uma ligação entre moralidade e liberdade. Há o dever que se refere à dignidade humana, assim devemos agir segundo este dever, e quando se fala em dignidade humana, é bom se lembrar do humano que cada um é. Assim devo respeitar a minha dignidade. E como humano e respeitador da minha dignidade e a dos outros humanos, me torno livre, e como ser livre não posso me sujeitar, por respeito a minha dignidade, aos apelos externos e internos do consumo imoral. Porque se uma barra de chocolate me sujeita, se uma cerveja me sujeita, um bibelô me sujeita já não sou livre. O importante é adiantar que ser moral pra emagrecer, diria Kant, se tratar de uma moralidade com fundamento hipotético. Não de todo boa. A Faço X para obter Y. kakakakk

22 de jul. de 2016

Viver

A morte é um final...  nada mais... por que então viver uma existência plana, rasa, serena, útil e funcional, seguindo como um animal a cenoura, cada vez maior, perfeita e suculenta que se nos põem à frente, para – que não seja tarde –  em dado momento perceber, que o mais importante da vida é justamente, com o nascimento, a poesia que se esperava ser, nada é mais prosaico, se o que se quer é viajar nas fronteiras dos próprios sentimentos, aonde se odeia e se ama desmedida e sem razão, e não ficar encravado nesta geografia construída, nesta bolha de ar sem ar...

18 de jul. de 2016

Wang-Fo

Wang-Fo

Naquele conto, o velho pintor Wang-Fo acabava de ser capturado pelo Imperador, que havia passado toda a infância e parte da adolescência trancado num quarto lotado de quadros do velho pintor; onde o então garoto havia descoberto um esboço do que para ele seria a maior obra do velho; Wang estava ali retido porque o garoto quando libertado, para se tornar Imperador, descobrira um mundo extremamente inferior ao mundo das pinturas de Wang-fo; agora exigia o termino do esboço, antes do cumprimento da sentença, a morte.


Wang-fo pinta um barco, e pinta Wang-fo dentro do barco com seu ajudante, pinta remos nas mãos de seu ajudante, pinta um mar, e pinta o barco indo, indo, indo e indo e lá longe pinta rochedos, e o barco se esgueirando por eles; o Imperador já não consegue ver o barco de Wang-fo já sumido por detrás dos rochedos e se libertando...

17 de jul. de 2016

O Homem que Queria Voar.

                                                                     
Um homem queria voar. Sem quaisquer tipo de geringonça. Uma agência ofereceu a ele esse serviço: Moraria com um casal, que tinha a sabedoria para voar. O casal oferecia esta sabedoria em troca de 20 anos de trabalho, na casa do casal. Ele tanto queria que aceitou. Cortou lenha, lavou a casa, as roupas, fez comida, cortou a grama, cuidou da horta, acendeu o fogo, apagou o fogo, limpou a lareira, a chaminé por vinte anos sem salários. No dia do vencimento, o marido procurou a mulher e disse: que faremos? Não sabemos como voar, não sabemos como ensinar a voar? Calma disse ela, deixe comigo. Pouco depois apareceu o rapaz. Pronto para receber o ensinamento. A mulher lhe perguntou: você quer mesmo voar? Sim, espero por isso a vinte anos. Então te ensinarei. Ele ficou feliz. Ela disse: mas Você tem que fazer tudo que eu mandar. Ele disse que faria como ela mandasse. Então suba nesse pinheiro, até lá no cimo. Ele foi subindo, ela dizia, mais para cima, ele subiu, subiu, subiu.. quando estava no galho mais fino do topo do pinheiro, ela disse: solte uma das mãos, ele tremia mas soltou. O marido disse, mas se ele cair ele morrerá. E quê? Solte a outra mão, ele meditou um pouco, e soltou. O marido fechou os olhos e quando os abriu viu que ele flutuava, agradeceu ao casal e saiu voando, voando...

                 Livre adaptação do conto Sennin. De Ryunosuke Akutagawa


Corrupção como Q.S.P - Quantidade Suficiente Para - para afastar a esquerda do poder.

          Desde o Mensalão, que blasfemo: “Na política, a corrupção não tem importância. A corrupção deve ser um caso de polícia e não de política”. Segui leviano, toda a vida a dizer que: “Sempre que a corrupção vira questão política no país: é, foi e permanece um método para afastar, alijar, desapear a esquerda”. ( seja ela qual for) – os parenteses têm destino consagrado, jajajaj - .
         
          Não preciso provar nada, as provas estão no ar,  basta ler os jornais e revistas, ver o telejornais e  a recente declaração do presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia.
          
          Se buscava um ponto que permitisse  alguma sustentação (um cinto de segurança)  para uma brusca  freada na questão (corrupção), coisa que Cunha não tem e não tinha. 
          
           Maia, por pior que seja ( e já se perdeu qualquer tipo de vergonha), pode dizer que a corrupção não é o foco da reforma política. Aliás, a tendência da corrupção é sumir dos meios de comunicação de massa ( nome horroroso, para comunicação social, mas tem a ver, ainda que me provoque ânsias.).      
         
          Moro já soltou as bolhinhas de sabão para o ar suas bolinhas de sabão, Lava-Jato deve acabar, o quanto antes.

          O processo está finalizado. A esquerda está afastada do poder. Se arrebentou por dentro. Se for o baço, a morte é certa, ou muito embaçada. As velhas práticas estão de volta.


           Muita gente boa embarcou no “honestismo”, barca furada, não podem responder, desgraçadamente, pelo golpe, por miseráveis idiotas. Neste exato momento estão a pedir as demais cabeças; as da oposição. No entanto, será apenas a busca de um álibi para sua inocência, deus queira, ou má-fé, no que mais eu acredito.  

O Asno de Buridan. Ou o homem apolítico, ou Neutro.


O asno de Buridan.


O pobre burro foi deixado em jejum uns tantos dias, para logo então ser colocado à frente de dois montes idênticos de capim. A besta foi incapaz de encontrar razões para se mover, quer seja para a direita ou para a esquerda. Esse vacilo insensato o levou à morte.
A simples consideração lógica das coisas, em si mesmas, não seria capaz de nos conduzir a uma prática. Falta a vontade.
O que se conclui é que o asno morre de fome porque é um animal exclusivamente racional.


dizem que em toda obra de Buridan, não há uma referência ao asno.

16 de jul. de 2016

Plagiar

Plágio.
Para plagiar, há que se ter lido e inda ler, ter muito boa memória. Saber onde estão as coisas. Porque tiveram, em seu tempo, toda  leitura ao seu alcance, os autores antigos, os medievais, os renascentistas, os de primeira modernidade, os modernistas,estiveram plagiando os contemporâneos  aos anteriores.  Hoje somos todos originais, porque não se sabe nada de neres, nem porque o gato dormitava no borralho. Já quis plagiar, mas não consegui,  porque desconhecia o plagiado anterior. Assim que, nem ser um plagiador alcanço, sigo original!

14 de jul. de 2016

O Domador de Elefantes.



        Na décima quinta página de um livro incerto, poderás ler, esta singular aventura ocorrida na Índia, com um domador de elefantes.
Traduzo como toda fidelidade necessária, incumbido de um budismo novo e ainda reticente, mas não tratarei de falsear as linhas do velho budista que a escreveu.
        No antigo sítio de Carvásti, para além do Ganges, o Rá Lauit mandou anunciar que precisava de um treinador de elefantes. Pois tinha um elefante bravio, que era seu predileto, mas queria que esse elefante estivesse mais próximo de seu palácio, e andasse pelos seus jardins e pátios.
        No dia seguinte apareceu, Sougraha, que se anunciou um perito nesse perigoso ofício. Claro que sei, ó Rá! Há três maneiras seguras de se domesticar um elefante bravio. A primeira é pelas argolas de prata... Está bem, está bem, Sougraha, amanhã depois da prece inicia teu trabalho.
        Quando deixava o palácio, um vaidoso Sougraha, ouviu um gracejo de um grupo de servos. O domador não se conteve, e colérico e impetuoso feriu um deles. Sougraha foi levado à presença do monarca. 
         - Que foi isso, meu amigo? Depois de um monte de desculpas esfarrapadas, assumiu que fora uma atitude irrefletida do impulso.
         - Como pretende, ó Sougraha! Domesticar um elefante, se não consegue conter a fera que te habita? Retire-se daqui, e quando se educar, quem sabe possa educar um outro.








Queda da Bastilha

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Uma das primeiras bobagens ditas por Pelé, e quando a disse era tida como um disparate, tolice, foi: O povo não sabe votar. Penso que é uma bobagem até este ainda fresco arrebol.   Hoje em dia, se tornou  verdade na boca de "grandes pensadores", "cientistas políticos" e outros desocupados como eu. O que fez de Pelé um pensador  adiante de seu
 tempo. Quem sabe as suas últimas truanices do Rei, não venham a se tornar teses, em papel couché!
O voto não traz –  nem tem esta pretensão –  grandes mudanças. Muda sim o viés da política, porque revolução não se faz com voto, e há quem duvide da guilhotina. Entretanto, o país tem deficiências, que alinhadas ultrapassam a muralha da China.
Saber votar! Creio piamente, que no esplendor da sabedoria de saber votar, votar será desnecessário.
O mesmo ocorre com o paladar, cujo verbo que diz do palato é também saber.  Este bacalhau sabe a sal. E treinado no sal, nosso paladar também não sabe triar, um gadus morhua, e se permite enganar com Lings, Saithes, Zarbos ou qualquer peixe seco e salgado, a não ser pelo preço e até nisso nos enganam.  Padecemos de analfabetismo funcional de paladar, senão, não produziríamos em larga escala um café tão miserável, embutidos nojentos, queijos indescritíveis, uns massudos outros chicletes e assim por diante.
E como não dizer do ouvido! Pardelhas, nosso ouvido musical... não  preciso me perder nesse tema... é pura degenerescência.
Quando soubermos escolher um queijo, é porque hão de haver queijos, músicas, treinadores de futebol, jogadores de futebol, as licitações farão sentido, pois existirão empresas qualificáveis tecnicamente, variedades de cafés, de torras, de misturas etc.
Se valer ainda a frase do Rei, ela vale para tudo, e não só os políticos ''levarem vantagens'', mas todos que vivemos da massa, da larga escala, do jornalismo pífio, do ruído que se quer musical, do humor escatológico...
Por fim, quem não sabe, compra rótulo... quase que os alemães me enganaram... mas me lembrei de uma piada que ouvi de um amigo ur ur, ao vê-los  frequentar cursos de lambada: “eles fazem curso de verão de espontaneidade”

A Aposta.


Sim, com certeza me refiro a uma outra coisa, mas agora não vem ao caso. Faltava um mês e ele estava angustiado. Faltava quinze dias e a agonia crescente. Finalmente, chegou o dia. Aquele dia de nervos aflorados, com a estranha sensação de calma. Um resto de coisas por fazer, feitas a uma velocidade irrepetível, e os feitos desnecessários. Fazia calor e estava cansado. A serpente a cada dia uma nova maçã. Impertérrito. O mito da caverna. O céu de incansável azul. Caverna ou Taberna. Não aposto nem um tostão. Tolstoi sua derrota. Cigarro de palha, café de coador e pinga de alambique. Cavalo em pelo. O Padre  seguido pelo sacristão, o infiel apontou a pistola, dizem que os tempos eram outros, uma questão de tentar a sorte, o Padre levantou a batina e de fato não vestia ceroulas. No risca faca, o último bar, embolsou o maço. Tirou o chapéu ao pálio e cavalgou pelo tapete de pó de café e serragem colorida...

13 de jul. de 2016

O Homem neutro.

     
                                                    O estratagema de Taklat

          O Califa Abd-el-Melik destituiu seu Grão-Vizir. Uma das filhas de uma de suas mulheres preferida, muito influenciada por Taklat, a bordadeira de tapetes, casada com o professor manco Mosab , que já fora um falcoeiro, levou ao Califa Abd-el-Melik a indicação de Taklat, seu marido Mosab . Mosab foi recebido no palácio pelo Califa Abd-el-Melik.
          Para formalizar a escolha, o Califa Abd-el-Melik pediu sinceridade nas respostas de duas singelas perguntas que lhe faria. Se tinha amigos, ao que Mosab disse que, incontáveis, de Alepo a Damasco, e grande parte da Pèrsia até Darahein. A outra, se tinha inimigos. Nenhum. Pela mesma geografia, só fiz amigos. Iallah!
          O Califa Abd-el-Melik, cofiando seu cavanhaque, declarou com reprovadora frieza sua sentença: Lamento muito, mas não poderá ser nomeado grão-vizir. Seria, realmente, absurdo, que o chefe do meu governo, o primeiro ministro do meu califado, fosse um homem neutro na vida, sem o menor traço de caráter, destituído de qualquer paixão politica, sem fibra, sem partido, aviltado pela fraqueza, falhas sentimentos. Todo aquele que possui uma parcela, diminuta que seja, de personalidade vê logo aparecer, ao seu lado, a sombra de um inimigo.
           Diante da tristeza do ingênuo Mosab, olhos no chão, sucumbido diante do desfecho, o Califa Abd-el-Melik ofereceu uma segunda chance: Volte aqui amanhã antes da terceira prece, com ao menos sete inimigos e te nomearei Grão-Vizir. E explicou: Ilustre Mosab, sou o Califa, sucessor de Morwâ, o glorioso. Pois bem, tenho inimigos cruéis, impiedosos dentro e fora de Damasco. Mesmo, Allah, que é Único, Onipotente, Misericordioso, tem os seus inimigos, os ateus e os hereges, e digo, irreconciliáveis.
          Cabisbaixo saiu Mosab, com seu manco caminhar, ia como se arrancasse do chão um perna ali fincada, para logo dar outro passo. Logo ao entrar no seu harém, contou a sua mulher Taklat, que logo estampou um largo sorriso. Com tudo planejado em seu pensamento, Taklat preparou o narguilé para Mosab, e pediu que lesse umas suratas, e o deixou, dizendo que voltaria com tudo solucionado. Ao voltar, Taklat expôs seu estratagema: Disse às minhas amigas que amanhã você será nomeado Grão-Vizir.
          No dia seguinte, na hora marcada, Mosab se apresenta no palácio ao Califa Abd-el-Melik de Damasco. “ouahyat-en-nebi “ exclamou o Califa, Vejo que Você conseguiu cumprir a tarefa. Hoje pela manhã muitos vizires e xeiques, durante a audiência, fizeram péssimas referencias ao teu nome e revelaram tremendas infâmias a teu respeito. Xeique Tufik Jaouad insinuou que Você tem cúmplices no Egito, e que a eles revelou segredos de Estado. Hassen Rahmi, o jurista, disse que o “taleb capenga, ex falcoeiro” - expressão dele – preparou sortilégios para matar pessoas da minha família. E a lista é muito longa de inveja, malquerenças, inimizades e ódios.
         O Califa avd-el-Metik, severo e hirto entre almofadas disse: Amanhã, na presença de todos eles, com todas as honras, tomará posse do cargo de grão-vizir. E com olhar malicioso, sempre conte com sábia e judiciosa colaboração de sua esposa Taklat.


12 de jul. de 2016

Hypokrisia x Hipocrisia

Escassez de verdadeiros hipócritas, aonde a hipocrisia é própria de fé robusta, que mesmo sob tortura não se abandona a  que se tem. Hoje sob qualquer pretexto se abandona um princípio por outro, o que é uma imitação de hipocrisia, quase atores, não posso dizer atores hipócritas, por superposição, já que há uma hypokrisía como a arte do ator.

Mentiras e Educação.

Estamos mentindo, obvio e ululo, mas para que?
De um lado a ''elevação cultural'' se quiserem, ''melhorar o mundo'', por outro, manter os impulsos ou instintos decadentes, ditos " naturais ",  em ambos intentos utilizamos o mesmo mecanismo, o da mentira santificada, a pia fraus. É  na educação aonde mentiras são beatificadas ou mesmo santificadas, para se poder antão dizer de ''cultura elevada'', o que não passa de  domesticação, no pior sentido que essa palavra possa ter, que é  enfraquecimento . Claro que há a domesticação que fortalece, mas aonde ela está?  Quem diz: Ei-la! Mente! Banalizando este  pensamento que é profundo,  a educação só tem servido para separar greges, rebanhos,  que no fundo são iguais onde uns sabem ler, mas não leem e outros que não sabem ler, por obvio, também não leem. Aqui tome ''ler'' por uma suma capacidade de interpretar a vida, de se auto enganar e se saber engambelador de si, saber que tirante esta mentira a verdade deve ser buscada a todo custo, mas que devemos saber que a verdade não é cientifica, a verdade pertence, em chãs palavras, a quem vence a queda-de-braço, mas para mantê-la seu detentor deve continuar forte, sempre e mais forte... Porque nada quando se tira o véu se mantém santificado, resta quem sabe uma aparência, e o poder de manter esta aparência.

"Volta atrás"

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Fazia parte dum partido político, aonde estava em trânsito, qual não tinha muitas afinidades, fora, a princípio, uma decisão precipitada pelo Romanée Conti.
Agora, me via escrevendo ao presidente da formação, que não pagaria minhas cotas, e dava alguma explicação sobre minha dissidência. A secretaria, pelo e-mail, me pergunta se não havia “volta atrás”. Pensei que podia ter dito: caminho de volta, ou marcha ré, mas isso de marcha ré não caia bem na boca de uma dirigente duma formação confessional.
Outro dia andava bolerando pelo YouTube, havia começado com o Bolero de Ravel, por uma reminiscência amorosa, alguém que "adorava" "transar" com esse fundo musical. De repente, me deparo com Lá media vuelta, um bolerão rancheiro mexicano, e eis que as coisas se parecem. O amante, um galinha, sem compromisso, diz a amada, que se não está contente com o romance que saia pelo mundo a conhecer gente, e que se, caso, encontre um outro, que a compreenda melhor, e que  a ame, então, bom proveito ( tire pa lante), sem problemas, porque darei meia volta e irei, como o sol quando morra a tarde.

11 de jul. de 2016

Krishnamurti.


Krishnamurti.

Krishnamurti, o mestre admirável, estava sentado em sua admirável varanda, forrada de alfaiais e tapetes admiráveis, quando achega-se um rapaz com sua túnica andrajosa, e em tom tranquilo e respeitoso assim falou: “Mestre, tenho uma dúvida a corroer meu coração, como água de bateria.. antes que terminasse, Krishnamurti quis saber qual era a dúvida, muito provavelmente para evitar demasiados floreios que quem não é florista. O rapaz se lançou de novo na lenga-lenga:”Senhor, com voz andrajosa, desengasgou-se e prosseguiu: quem tem mais amor, ou apego aos bens materiais os ricos ou os pobres? Os ricos às belas posses ou o pobre agarrado aos seus trastes?
Krishnamurti manteve-se em silêncio, baixou lentamente a cabeça e depois de uma brevidade, alçou o queixo e disse que não saberia responder, assim, a queima roupa, no entanto contaria uma lenda. Sim! Sim! Acudiu pressuroso em júbilo e pueril espontaneidade.
O venerável disse-lhe: Em Girkka, nas montanhas, havia um ermitão, um guru, santo, que vivia numa gruta, e vivia a rezar e meditar. Este homem era visitado semanalmente por fieis da região, com presentes e comidas especiais, quais rejeitava. Preferia comer uns grãos de arroz e umas ervilhas, e vestir-se com uma tanga, qual tinha uma sobressalente, que levava sob o braço por donde fosse.. O ermitão, por meio de seus fieis ficou sabendo de um sábio que vivia em Dakka, o douto Sindagg Naggor, que conhecia a verdade. O ermitão resolveu ir visitar-lhe, afim de aprender, conhecer a verdade. Saiu pelo caminho com a tanga sobressalente sob o sovaco. Ao chegar à mansão de Sundagg, Timanak, era assim que se chamava o ermitão, ficou deslumbrado com o luxo e a opulência, e se apequenou, engasgou, gaguejou, mas conseguiu dizer ao sábio o motivo de sua visita. O sábio, disse-lhe que não se deixasse influenciar pela riqueza do lugar, e que ele poderia sim se hospedar ali, e que teria imenso orgulho em ajudar com sua sabedoria, que não era tanta, na sua busca Timanak! E assim foi.
Todos os fins de tarde saiam a caminhar pelos jardins e campos da mansão. Num desses dias, e muito provavelmente, foi o último, ouviram um barulho. E quiseram saber do que se tratava, poderia ser um bando de elefantes, mas ao se adiantarem pelo caminho, viram a mansão de Sundagg em chamas. O fogo era tamanho que em poucos minutos consumiu tudo que ali havia. No entanto, Sundagg, se mostrava tranquilo. Coisa que espantou o ermitão, que a cada minuto se mostrava mais indignado, chegando a bater com a cabeça contra uma árvore varias vezes. . Sundagg pede que Timanak se acalme, que tudo aquilo não tinha valor. Ao que Timanak responde, é que esqueci na mansão a minha tanga sobressalente. O rapaz da túnica andrajosa retirou-se sem dizer palavra.

O sol, tocando de leve a linha do horizonte, espalhava as cores avermelhadas do crepúsculo marchetando nuvens, se põe.   

Kamasutra

Lia Kamasutra, porque não é só de ilustração, tem texto também, que uma mulher jamais te abandonará se dormir (ela) uma noite com a cabeça envolta num turbante recheado de cardamomo, cúrcuma e excremento de macaco. Estava pensando aonde encontrar tais coisas, e me lembrei que vi um turbante num bazar chinês na rua Duque de Caxias, o resto é fácil, exceto a coisa do macaco. pensava no bosque, como entrar na jaula...
 Alguém bateu com os nós dos dedos no portão. Em casa não tem campainha, nem interfone, acho que não gosto, entram dentro de casa. Abro. Um homem de idade indefinida. Está bem vestido, o punho da camisa tem até abotoaduras prateadas com madrepérola, cabelo cinza combinando com a camisa cinza e a gravata um tom acima. Tudo contrasta demais com suas feições toscas. No tempo dos neandertais seria um modelo famoso, penso.
 Ele me diz: "Sou quem ninguém espera. A canção mais querida, e riscada, do vinil mais querido. Sou quem põe o som de comemoração de gols em estádios vazios. Quem aumenta o volume do som durante a publicidade. Sou o cara que para diante da TV justo na cobrança de penalidades. Sou a última azeitona. A última bolacha. Sou...." Interrompo. O senhor é Testemunha de Jeová ou algo semelhante? Não, trabalho no Fórum, na vara de família, sou oficial de justiça, e o que faço é notificar. Mas tenho minha veia poética, e tento botar um pouco de lirismo nas más noticias. O senhor está intimado, sua ex reclama pensão, assine aqui e aqui, tem cinco dias para recorrer, procure um advogado.   

Risca-faca.





                                                                                                 In Memorian. A Zoinho, Dircinha,... que                                                                                                               são parte real dessa história. 

Etávamos todos lá no bar do Carçola, que em épocas pré pentecostais, era lembrado como a décima quarta estação de nosso calvário, ou nas rarefações de repertório, o último gole, no mais era mesmo o risca-faca. Foi lá que vi o Lemão cair como um baobá, como sempre ele se punha com os cotovelos no balcão, de frente para a rua, que é de onde vinham os perigos. Naquele dia veio na forma de um negrinho magricela, dizem que era da Vila Virgínia. O Negrinho trazia como cartão de visitas, um bonfinense do arco-da-velha, Beiço. Rei das arruaças. Lemão disse que lá vem gente ruim estragar o ambiente. Lemão era mais forte que ágil, morreu recentemente, precário de carnes, então,  era puro músculos e gostava de reinar. Logo de cara perguntou a Neguinho se ele tinha convite. Desde quando? Mas Beiço em dia de pacífico, pediu um deixa prá lá! Lemão, deixa prá lá não! E no muque foi tirando os dois do bar, já na calçada Neguinho balançou a capoeira. Ah! É! É capoeira! É desses que eu gosto! E foi pra cima. Levando um voadora no peito. Balançou. Prumou. Engonçou, mas já era tarde, tinha sido ceifado pelas canelas, e foi tombando desgraçadamente inutilizado para mais. Mas não é o assunto que move, o que contarei não se passou nesse dia, foi num outro, lá pelo começo de setembro. Nesse dia, Lemão também estava lá, mas já andava de crista quebrada, e quem mandava era o Kaspa. Era setembro porque a fanfarra do Francisco Junqueira andava a ensaiar. Kaspa estava nervoso. Antes fora um homem daqueles completamente de bem, da família, da igreja e da pequena propriedade. Havia ganhado outro status por ocasião de ter matado o Gordinho, parceiro de Caveirinha, juntos haviam matado gente nas duas margens desse ribeirão Preto, assaltando postos de gasolina, botecos, armazéns de secos e molhados... O Cabo de Bonfim, prendia o Gordinho, que era de menor, mas logo estava por aqui e ali, num tipo de quaresma. Na quarentena chegou a roubar uma panela de pressão com feijão cozinhando lá na rua doutor Sarahiba, perto da casa dele e do Tunis. Dizem que, o Kaspa falou com o Cabo, e que o Cabo tenha dito, se você matar, será um favor para a sociedade. Vejam como nasce um crápula. Kaspa estudara os movimentos de Gordinho, e naquele dia sabia que ele voltaria no circular das onze da manhã. Embarcaram em Ribeirão no ponto da Catedral. Há quem diga que trocaram palavras, ao certo não sei. E vieram. Quando chegou Bonfim, na praça Rio Branco, que era aonde Gordinho ia descer, Kaspa se colocou atrás, sacou a arma e descarregou o 22,
Acertou dois. Gordinho correu pela doutor Sarhiba, que é aonde morava, entrou no primeiro portão aberto, pedindo água. Não chegou a bebê-la. Kaspa se escondeu do flagrante. E até esse dia que quero contar, ainda não havia sido julgado. O fato que quero narrar é este: Kaspa, agora, era um benfeitor.
A fanfarra passava em frente ao bar, que ficava aonde hoje é um salão de cabeleireiro. E na época dos fatos estava a seu lado o Cine São Roque.
Kaspa se invocou com o barulho da fanfarra, gritou que parassem com o barulho, que se não... foi até sua casa, pegou seu caminhão Mercedes Benz 1111 e quando a garotada estava na rua da Praça, atropelou a todos, matando a sete deles.



8 de jul. de 2016

Plenilúnio

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São os país responsáveis do que  fazem os filhos? E os filhos hão de pagar pelo que fizeram os país? E os irmãos, uns responsáveis pelos outros? Quem já se sentiu concernido pelo que faz um familiar, e  até mesmo um amigo?  Temos tendência uma empatia que vai além do se dar conta do que se passa ou faz ou sente o outro. Em realidade, há o afeto. Sofremos e nos alegramos com o que alegra ou entristece o outro. E não há necessidade familiar! Creio que estamos longe da resposta de Caim "Não sei aonde está Abel, por acaso sou o guardião de meu irmão?"
Quinta passada, a lua estava grávida sobre Bonfim ( quem sabe se Bonfim é o mundo?), projectava uma luz leitosa sobre as casas e a matinha que daqui diviso, e pela janela, sobre a capa deste livro que insisto em não acabar  de ler, "O passo de uma geração à seguinte, não e um passeio plácido entre   condomínios e seus paisagismos domesticados, é um movimento sísmico que afeta, decide e define a vida de pessoas, um rascunho que bota em prova o universo e faz tremer os fundamentos da humanidade, e é assim mil vezes e  uma". Entre o dever e o êxtase, a tensão e a lealdade e a traição que conduz à liberdade, temos o estribo da responsabilidade com  as gerações que nos sucedem.
A propósito, este céu cinzento impede a luz leitosa da lua.

7 de jul. de 2016

“You're just to good to be true...”.




The deer Hunter, conhecido, aqui, como Franco Atirador, já é um clássico do cinema, que ganhou cinco Oscar em 1979, com dois temas musicais que marcaram algumas das grandes cenas da trama. Uma é aquela Can't take my eyes off of you ( música de 1967, que muita gente boa e ruim cantou) aqui, no filme, cantada em coro envolta de uma mesa de bilhar num bar de uma cidade metalúrgica da Pensilvânia pelos amigos interpretados por De Niro, Savage, Christopher Walken e algum outro que agora não me lembra o nome, antes de irem para uma guerra do Vietnã que os entortaria a biografia ( sobretudo ao encarnado por Walken, vítima do temerário vício à roleta russa). Essa melodia pegajosa, que agora toca no alto-falante da igreja de Bonfim, para anunciar a quermesse do fim de semana. Gostava, e gosto ainda, mas antes, e se puxar pela memória, saberia toda a letra, que começa assim: “You're just to good to be true...”. Bom demais pra ser verdade. Boa, nesta situação concreta, tendo em conta a resposta: “I love you baby..”. Depois, aquela dança e música russa, Katyusha, na cena da festa do casamento, que me deixou com vontade de casar, e acima de tudo, casar com uma festa daquela. Outra música da trilha sonora é a melodiosa Cavatina, que com esse seu ar de serenidade me atormenta. Aliás, foi ela quem me trouxe essas recordações. E como as coincidências não param, fui saber que Michael Cimino morreu esta semana. Sei que ele realizou outros filmes, que não me importunaram, senão este, que já é o bastante para uma vida. Para finalizar, gostaria de dizer que Christopher Walken é tão bom, que quando ele aparece no filme, este ganha contornos de realidade.   

Selfie, belfies ou textos, tudo é fungível e provisório

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 Uma moça com 32 anos morreu num acidente, sozinha, numa estrada da Carolina do Norte, detalhe fazia um minuto que havia postado um selfie no seu mural do facebook.
Umbigo! Poderia traduzir facebook por umbigo, mesmo porque como o outro, todo mundo tem. Todos temos aqui um bom remédio para a solidão, um reforço para a autoestima e um belo cenário para a vaidade.
Sempre haverá um amigo virtual disposto a ter uma conversa, outro que curtirá uma publicação, deixará um comentário... E o melhor de tudo é que os amigos de Umbigo, tirante aqueles que conhecem a nossa vida real, são do tipo I\O, liga desliga. Os conflitos não têm transcendência, as disputas, quando as há, se esquece rápido. Tudo é fungível e provisório...
Para  selfies de  cada nova camiseta, as palavras vaidade e exibicionismo, são adequadas, mas incompletas... e entendo disso tanto quanto da curvatura do tempo... mas gosto de escrever no meu mural, difícil dizer a fronteira entre a busca por autoestima  daquilo que gostaria que fosse lido, somente por isso. Sei que me estimula, ao mesmo tempo que a curtida aumenta minha autoestima...
Há o belfie que é o selfie da bunda...   todo mundo posta de cara ou de bunda... com a câmera ou com o teclado... uma selfie em cada  texto...

Segunda não é dia de feijoada

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Que sina! Agora esse negócio de ''Orgânicos”, por toda parte, o que não anda avoa, e parece que tudo se converterá em “Orgânico” para triunfar, economicamente, claro, tem que ser "Orgânico". Porque esse “Orgânico” não implica em mais nada que isso “Orgânico”, grosso modo. E com este rótulo me deparo com verdadeiras imundices (imundicia no dialeto bonfinense) e há sempre loios dispostos a consumir e mais, a promover, “fazer o boca a boca”, e mais ainda, a repetir uma frase com um dos adjetivos mais maltratados que conheço: Isso é uma mandioquinha “Autêntica”! Pardelhas! Se tudo é autêntico, até a falsidade, os falsários, os farsantes... até a aspirina é autêntica!

P.S. A começar pelas sementes que são as mesmas, já modificadas, já alteradas, e adulteradas.... são as "autênticas" alteradas, adulteradas e modificadas.

Calor é Dionísio, frio Apolíneo

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O calor nos põe na mesma geografia dos sentidos, onde nos subjulga e nos transforma em seres que experimentam sensações extremas, entre  estupefação e  abatimento. Quando, então, faz muito calor, nossa identidade se revela, todo aquele lixo estancado sua, entre suores e bocejos em busca de ar denso, sempre acabamos por fazer o que tenha um mínimo de sentido. É muito comum no cinema, aquele calor asfixiante, camisetas coladas ao corpo pelo suor, como se fossem a prisão de almas torturadas. Na roça é perfeita essa relação, essa entrega do homem à terra e a terra ao homem, esse diálogo mudo de lava.
O frio não, o frio solidifica os sentidos que de tão duras e afiadas suas aresta machucam.
Adoro me abandonar ao calor do clima, dos corpos, do álcool,na boca de um vulcão, dos espaços pequenos, das conchas, cavernas minguadas, até perder a linha e então sair por outras atmosferas, realidades que transcendam o corpo e o tempo, como se estivesse num duelo de olhos,  num western de Sérgio Leone.
Gosto desse friozinho, apolíneo, mas me dou sempre conta de que prefiro a caldeira do inferno, que sempre borbulha, por motivos óbvios, incendeia os meus pecados, e aqueles que me julgam, que permaneçam no seu mundo de porcelana, ar condicionado ou lareiras sem madeira  esperando que me consuma.

6 de jul. de 2016

Um novo planeta.




       Era o encontro bianual dos chefes de estado. Estavam acompanhados por especialistas em segurança planetária. A tensão era visível, sólida, digo, já que isso não é uma noticia. No entanto, tais reuniões eram sigilosas, clandestinas; e nenhuma tivera tanta transcendência como esta.
       Durante os últimos longos dez anos, havia-se levado a termo investigações caríssimas, profundas; incluindo algumas viagens espaciais, que desvelaram a grande descoberta, o fato mais importante da história; a descoberta de vida num outro planeta. Não se tratava de uma vida singela, sim complexa. No entanto, sob o comando dos mais poderosos, e aquiescência dos demais líderes, a descoberta foi ocultada, digo sua espetacularidade, pois foi dado a conhecer a descoberta do planeta, e de uma forma peixe com pernas, que seriam traseiras e asas como braços. Já os alienígenas, foram mantidos como segredo de Estado.
        No correr daqueles anos, toda a ciência disponível foi empregada, até mesmo a psicanálise foi empregada, um nietzschiano chegou a insistir nos vedas, tudo valia, para obter informações, tudo valia para se conhecer melhor a nova espécie, o que ia dentro daquela cabeça. Serão como nós?
        A finalidade desta cimeira era determinar se os alienígenas seriam um risco, para os Estados ali representados, para se poder garantir a segurança dos seus cidadãos, ou se era conveniente, por fim, destruí-los, porque apesar dos esforços científicos não se havia chegado a conclusão cabal.
         A tomada de decisão tinha caráter de urgência urgentíssima, antes que fosse tarde.
Os dados obtidos pelas viagens de naves que permaneceram em órbita daquele planeta ignoto, e mesmo da última nave, que desceu ao planeta e permaneceu lá pelos últimos três anos, incógnita, a enviar informações eram ou não eram cabais? Essa era a pergunta dos Líderes.
         Ao cabo de muitas apresentações, O engenheiro líder dessas expedições foi enfático em sua fala aos chefes de Estado, estas foram as suas palavras:
         “ Não é necessário gastar mais recursos e esforços, e tampouco será necessário destruí-los, é uma espécie condenada à desaparição. Os últimos dados que obtivemos, nos mostra que incompreensivelmente se matam entre si, devastam, poluem o planeta, e têm a bomba atômica. Não nos preocupemos. São uma espécie com data de vencimento já falsificada.”


Gaiola!
Quantos anos podia ter? Dez ou nove anos, andava pelo quarto ano primário. Depois do recreio, nos colocávamos em filas, ordem unida, e Dona Yone, inspetora, passava em revista. Naquele dia, ou neste dia que esta imagem esmaecida ainda me chega, como um fóton dos confins do universo, alguma euforia se mantinha em nosso bando. Cacildo sempre a frente. Todos em silêncio, menos nós. Dona Yone soltou a cacholeta, que me acertou o pé da nuca, e o sopapo sendo forte o bastante pra me levar ao princípio das filas. Logo com a mesma volúpia, transferia Cacildo para meu lado. Riamos, não havia outro remédio. Todos riam de nós, e nós de nós. Pelas orelhas, Dona Yone nos trasladou para debaixo do relógio, que ficava no corredor das salas de aula. Ali como dois palhaços, esperamos a que todas as filas passassem, com seus risinhos. Por fim vinha Dona Yone, seu passo lento e pesado, e as palmas das mãos, na ponta dos braços vinham  rechonchudas e viradas para trás, como todo ser com aquelas banhas todas. Os braços lhe pareciam remos. Com a delicadeza que lhe era possível, nos conduziu à sala de Dona Josefa, a diretora. Ruim. Mulher ruim, está para nascer até hoje. Não creio que tenha nascido. Encheu-me de palmatórias. Por fim fui conduzido só a uma sala, conjugada à biblioteca. Lá fiquei trancafiado, no escuro, até o fim das aulas. Só depois soube que Cacildo sofreu toda sorte de pancadas. Dez anos.  Lembro que chorei muito, em silêncio, ouvi o sinal da quarta aula. Por fim chegou o último sinal. Dona Yone me soltou, não me disse nada. Fui para casa. Quando cheguei, olhei de cara para a gaiola, onde, como era costume então, tinha um Canário, que cantava com o primeiro raio de sol, e quando tocava no rádio umas músicas caipiras de Lourenço e Lourival. Abri instintivamente a portinhola, e ele se foi. Estava ali desde que só tinha penugens. Talvez, como me disseram, sofresse para viver por conta,  estava domesticado, pode ter sido efêmera sua vida livre, mas com certeza, intensa, fosse o  tempo que fosse. Nem bestas, nem feras, nem jovens, nem velhos, nem povos, nem nada devem estar numa gaiola. Pensei então, ainda que naquele então, não se me ocorria por inteiro este pensamento.

5 de jul. de 2016

Piada do alfaiate,

(De Th. Cathcart y D. Klein, Platón y un ornitorrinco entran en un bar…

Um homem provava seu terno, sob medida, e dizia ao alfaiate:
  • Essa manga está sobrando! Tem uns cinco centímetros, pelo menos, a mais.
  • Espere, não, olhe, se Você dobrar o cotovelo... viu?! Perfeita, não é! Disse o alfaiate.
  • Tá bem – continua o fregues – Mas, olha só o colarinho! Quando dobro o cotovelo, o colarinho vai lá pra trás!
  • E daí? - insiste o alfaiate – Levante a cabeça e o queijo... viu? Perfeito, não é?
  • Ah! não! Mas agora é o ombro esquerdo que está mais baixo que o direito!?
  • Nenhum problema. Jogue o corpo para a esquerda e o quadril para a direita e pronto, viu... recomposto, não é? O homem saiu da alfaiataria vestido com o terno, o cotovelo dobrado, a cabeça empinada, o queixo alto, inclinado para a esquerda. Parecia que havia parado num movimento de bambolê. Quando chegou a um cruzamento, se encontrou com dois transeuntes.
  • Olha só como caminha esse pobre homem, que pena! Disse um deles.
  • Já tinha reparado, mas você viu seu terno, seu alfaiate deve ser um gênio, um cara todo torto e o terno cai perfeitamente.





Antinous.

                                                 “The rain outside was cold in Hadrian’s soul. The boy lay dead On the low couch, on whose denuded whole, To Hadrian’s eyes, whose sorrow was a dread, The shadowy light of Death’s eclipse was shed.”  ANTINOUS Fernando Pessoa


Renato não acreditava que aquele romance estivesse lhe impressionado tanto, e mais que a qualquer outro. Sempre esteve a subjugar o conceito de belo. Antinous seria tão belo? Como a estátua que tinha à sua frente, naquela sala do Vaticano. Renato pensava, Adriano substituiu, uma vez morto o rapaz, a carne do amado pela sublimação da pedra. Uma maneira de perpetuar o amor.
Renato recordava que quando morreu Isabel quase enlouqueceu. Tanto que rasgou todas as fotos, menos duas, a que tinha no criado mudo e a que levava na carteira. E delas nem tinha os negativos. Mas ali estavam. Os olhos de Bel sempre tinham uma mirada penetrante, espetavam desde a profundidade, mais ainda, quando faziam amor. Os olhos de Antinous, mas, se, não olhavam para ninguém. Antinous, de mármore, foi feito para que lhe admirassem, e basta. Era belo, sim. Renato disse-se que não, não faria suspirar aos homens, por mais belos e bem feitos que fossem.
Vagando em seus pensamentos, mudou de sala e estava agora aonde predominavam os bustos. Queria compreender Adriano, necessitava saber, o porquê de o imperador languescer até a sua morte por esse rapaz que o mármore imortalizará, enquanto exista quem o admire.
- Por deus, mas que você faz? Saia daqui agora mesmo! Depravado, gritava um guarda do museu.
Renato girou-se. O vigilante andava na sua direção e outros visitantes se entreolhavam surpresos, enquanto outros faziam cara de nojo.
Os lábios de Renato haviam encontrado a boca entreaberta do busto de Adriano, e notava-lhe como o coração batia e que o desejo dominava todas as partes do seu corpo. Os olhos de mármore do Imperador também o olhavam com igual desejo e lhe diziam em silêncio: compreende o que é a beleza? Sabe o que é o prazer de possuí-la?
- Sei o que é o prazer, até ao êxtase, agora que conheço quem fez da beleza o único sentido da vida e isso não pode ser pecado , disse Renato em voz alta.




4 de jul. de 2016

Manézões e Michelzin, o superdotado.



      O dia que Michelzin nasceu todo mundo se espantou. Seu primeiro choro foi um grito bem modulado, um si bemol. Soava bem, acima de tudo, melódico para sua idade, dois minutos. Em seguida, fez uma tentativa de saudar com simpatia os seus progenitores, boquiabertos e babões. Se saiu ainda melhor quando piscou-lhes o olho, fazendo troça.
      Michelzin não parava de fazer demostrações, umas mais extraordinárias que as outras. Depois de uma hora de nascido, já mantinha uma conversa com enfermeira, agradecendo o trabalho feito, abraçava a mãe dizendo que não se preocupasse, que logo, logo encontraria a mulher de sua vida, e construiria sua família.             Apertava a mão do pai, assegurando-lhe que seriam bons colegas, que analisariam detidamente a situação econômica da empresa de propinas que o pai dirigia, e encontrariam uma saída segura para a crise pela qual passava o setor.
       Quando Michelzin se põe de pé, já caminhando rumo ao obstetra que assistiu ao parto, que pensou em segurá-lo para que não caísse, a fera o fintou e saiu em disparada pelos corredores do hospital, se deparou com as pessoas espantadas, incapazes de entender o que acontecia e não continham a baba e não podiam ferchar a boca. Então, Michelzin se retira para um canto para refletir, uns segundos depois diz a todos em voz alta e firme:
  • Dizer-vos-ei: será que não falta-lhes-ia um pouco de empenho e aplicação ao trabalho?

Todos os presentes estavam petrificados. A essas alturas, se supõe, como mínimo, que Michelzin já chegou aos paraísos ficais, fazendo das suas. Ou quem sabe.... a coisa mais edipianas...

Getúlio.



          Olga passava roupa, quando Delgado começou a gritar, ofender e a esmurrá-la. Depois do terceiro golpe, esfrega o ferro de passar na cara dele. Delgado grita e ao tentar sujeitá-la  caem agarrados e lutando. Olga desfere um, dois, três, quatro golpes com o ferro de passar e racha o crânio de Delgado. Morto. Por sorte, Getúlio não estava. De vez em quando ele saia, e ao fim de um tempinho voltava para a casa. Getúlio era assim.
          Olga arrumou a malinha com umas trocas de roupa, algum remédio e qualquer coisa mais, se acaso necessitasse. Preferia não olhar para trás. O táxi a esperava. Acabava de trancar a porta e ao virar-se uns olhos arregalados procuravam os dela. Era Getúlio, não poderia levá-lo. Tinha que ir embora.
           Havia cinco anos que Getúlio chegara àquela casa, entrado na vida de Olga e Delgado. Desde os primeiros momentos, Getúlio cuidava dela, depois dos espancamentos que tanto sofria. Por isso estava sempre a seu lado. Era um bálsamo para ela,, depois de um grito, um soco, e bastava sentir o seu contato, o que  para Olga já era um alivio.


          Agora tudo se acabava. Nunca, jamais será tarde. Cinqüenta e tantos anos. Olga se cansou de ser agredida. Era uma mulher de idade. Mas, na prisão não querem gatos, lhe disse uma policial por telefone.

Eu, ou o Homem que despe as mulheres.

Eu, ou o Homem que despe as mulheres.



            Ia ao pet shop comprar vermífugo para Xico ãÃo – meu gato - que anda perder pelos mais que os que tenho, quando encontrei Pedrão, o Belo, que anda a vender esperança na praça XV. Na real, só vende bilhetes de loteria, mas não é isso que quero falar, se não de sua inveja incurável, que é oposta ao vinho, só piora com o passar dos anos, e sempre  quer saber como estou sempre rodeado de mulheres, sendo Feio.
            É assim que ele me chama, Feio, sem artigo. Gostaria que me chamasse Gabo e eu o chamaria de Mestre. Mas, repertório é repertório. O fato é que pouco a pouco ele vai arrancando meus segredos mais secretos, ainda que saiba, pobre Belo, nunca poderá aplicar, porque não se pode ser superior a si mesmo.
           -  Eu, Belo, gosto das mulheres, por óbvio, mas gosto da maneira que elas gostam que gostem delas. Essa é a chave. Mais de uma vez te disse meu amigo, Belo, que não se pode amar uma mulher se não a ouvir, a escutar. Ouvi muita as mulheres, mas tenho amigos que são surdos e outros que são   portentosos ouvidos. No entanto, Belo, te digo mais:”Quando olho para uma mulher eu a desnudo, a dispo, sendo que há quem as mire e as vista”. Logo, ele quis saber o que queria dizer com isso, então lhe disse : “ Das mulheres gosto de tudo: seu rosto, seu penteado, o lóbulo de suas orelhas, as unhas dos pés, o cotovelo esquerdo, a sinuosidade do pescoço, suas pálpebras, a roupa que vestem, a maneira como se penteiam, como movem as mãos quando falam, como dizem que não gostam de camarão, etc”. E a tudo isso, acrescentei, "te garanto, gosto de verdade e esta sinceridade de meu olhar, elas pegam no vôo", e completei: “Sabem, que diante delas está um cara, que gosta delas por ser como são”. Quando cheguei em casa, Penélope, que tricotava uma roupinha para ãÃo, me perguntou, por onde o senhor andou? 

3 de jul. de 2016

Sob a Estrela da Manhã.

              Os exames contundentes, aos médicos não restavam dúvidas, e me disseram que, quando o tumor cerebral, que haviam detectado, se desenvolvesse – podia acontecer amanhã ou em três meses – me sentiria muito cansado, muito, como se estivesse a horas caminhando numa subida sob o sol do meio dia de algum fevereiro, então dormiria e já não despertaria.

              Quando sai da consulta fui direto para rodoviária. Tomei o ônibus que me deixava na beira da estrada, na entrada para voltar ao sítio. Aproveitei o trajeto para ir parindo a sentença, e mais tarde, depois do jantar, sai ao quintal para olhar o céu. Noite escura, sem lua, pude contemplar as milhares de estrelas e a massa densa e leitosa da Via láctea, entre os clarões das cidades distantes. Meu pensamento andava por milhões de coisas miúdas como as estrelas; dei conta que se quisesse não deixar pendencias para os meus, haveria de voltar à cidade, ir ao banco, ao cartório, à funerária. Decidi fazer no dia seguinte, logo pela manhã.

              Despertei com a alba, fui até a estrada. Não tardou e vi ao longe as luzes do ônibus. No silêncio de uma estrada ainda erma, ouvi todos os mecanismos do cambio, o bufar do freio. A porta se abriu, embarquei, paguei a passagem ao motorista e fui lá para os assentos do fundo. Ao longe ouvi uns gritos, era um vizinho de sítio pedindo que esperassem; chegou bufando pelo cansaço de correr por aquela subida. Entrou, e quando vinha pelo corredor me saudou com um aceno de cabeça e um sorriso de velhos conhecidos. A porta se fechou e o motor roncou mais forte. Clareava. Notei que estava muito cansado, muito, como se tivesse caminhado a subida do sítio à estrada sob um sol de fevereiro ao meio dia. Fechei os olhos, o ronco do motor me ninava, no céu ia a estrela da manhã, adormeci.


Carta Reaberta a F.H.

Carta re-aberta a Fernando H. Catani.Tudo começa meu caro Fernando, quando todos 'achamos', que Portugal chegou aqui por acaso, que  a família real portuguesa veio comer coxinha de galinha, que Dom Pedro deu um grito simbólico, já que tudo já havia acontecido. Essa fé – porque crença não é, já que crença se baseia em algo provável, no sentido de verificação, verificação que a média brasileira, e somos todos medianos – depois mais tarde todos 'acham' que uma câmera na mão e uma 'ideia' na cabeça é o bastante, e acabam por deixar de ver o mais importante em Hollywood, por exemplo, que é o fato de que eles 'não leram' os clássicos, os estudaram, e a teoria está presente até em Walt Disney, basta ver o Mickey em Aprendiz de Feiticeiro. A mídia em particular, impressa e televisiva, já que a radiofônica é muda intelectualmente, tem verdadeira ojeriza pelo aprofundamento, e está sempre a tratar qualquer voz de dentro das universidades – as dignas de assim serem chamadas – de um bando de aloprados. Por quê? Porque sempre querem a solução gambiarra, barata e por fim frustrante. Por que 'acham' que tudo é por acaso, e não um caso pensado. Veja um exemplo: Faz uns vinte anos, a TV brasileira mostrou alguma coisa de Noam Chonsky, como se se tratasse de um maluco, por ele dizer que o teclado do PC e o próprio PC em nada tinham a ver com o corpo humano, não eram enfim ergométricos. Banalizaram. O Touch, é o que é por causa do  visionário Noan Chonsky que pelo avanço tecnológico. A ciência e depois a ciência aplicada, foi atrás da ideia e seus argumentos, na busca para uma melhor 'solução'. Questão proposta e instigada por um linguista. Depois se propaga a ideia: os pesquisadores brasileiros são improdutivos, ou fazem pesquisas tolas, basta ver o idiota do Jô, alardeando a uma massa que se pensa critica e pensante, mas não passam de bando de basbaques, que 'acham' o gordo a cereja do bolo da inteligência tupiniquim, e que como essa imensa massa pseudo, e amorfa, inclusive, chega a pensar que fala espanhol melhor que seu camareiro chileno. Ou seja, fala espanhol com palavras portuguesas. Como aqui todos falamos italiano e espanhol e se marcar japonês e chinês, a questão do inglês é risível, todos acabam fazendo sabão em pedra, pensando que a química se reduz a isso. Assim poderia passear por todas as áreas do fazer humano brazuca, e em todos há a fé que você muito bem expôs. Leva-se demasiadamente  a sério a frase de médico e louco... todos são alopatas, homeopatas...  enfim poucos sabem que o fermento seco 'royal' é bicarbonato de sódio.

Submundo

#DieTiefe. Há uma internet que diante da qual as próprias agências de inteligência capitulam. É chamada de Net Profunda(Deep Net), Portão ou País Onion(Onionland). Um reino misterioso de liberdade, onde as drogas, armas e aquisição de serviços de assassinos são possíveis - e continuará a ser completamente anônima. Um universo digital do Submundo

Estado x Iniciativa Privada

#DieTiefe  O capitalismo tem um lance que é fantástico, mas que no brasil da zilda ninguém dá a mínima ( ninguém = iniciativa privada) que é o custo. Um médico, seja sua formação acadêmica, custa muito, pelo tempo necessário e suficiente, pelo custo do material\instrumental\etc  para o discente, pelo custo para a unidade formadora. No mesmo capitalismo o custo de produção aliado à lei da oferta e da procura diria, por leviandade, que a conta não fecha, porque quem poderia comprar a produção, no Brasilda, não tem dinheiro, dai que desde 1988 quem deveria bancar é o estado  (união\estados\municípios),  ocorre que os mesmos com essa tal da previdência\saúde universalizante e solidarizante não tem os cobres para todos, quer dizer tem, mas vinténs. O corporativismo fecha a coisa intracorpus! É o mesmo caso das carroças que o collor disse, da velha lei da informática...

Partidos

Se não tem Copas, vou de espada, e truco! reboque de igreja velha.
As formas e os personalismos dos partidos convencionais, já não têm credibilidade.
 Por quê? não sei.
Mas,
Digo que os movimentos sociais não devem ser tão menosprezados, como foram, nestes últimos meses. Grosso modo, tem sido onde o cidadão se manifesta, participa. O binômio ”sei o que o povo quer” petista e o “o povo ganha quando ganham os ricos” peessedebista, preteriu os movimentos até então, um dizendo que se tratava de massa de manobra e este achando-se manobrista. Digo dos dois partidos, já que os demais  tomo, para simplificar, por aderidos. Assim os movimentos sociais encontraram ouvidos emouquecidos. Traçando um paralelo, tem-se que os partidos, no poder, se tornaram absolutos. O que antes era dado por consanguinidade, ou por ordem divina, agora são ordens da maioria dos votos válidos. Isso me leva a pensar que hora ou outra, mandaram a plebe rude comer pão de queijo na falta de biscoitos de polvilho.
 Então haja guilhotina.
 A tripartição do poder é déjà caduca. O judiciário atua a partir das e para as linhagens, estirpes, raízes, etnias etc. O poder de polícia é só mantenedor da ordem vista às grandes propriedades, ou de grande valor. A patuleia é no cacete, vigendo a ordem supradita, etnias, raízes, estirpes, linhagens... O executivo apartado dos cidadãos em geral, com a grana graúda se orienta segundo uma dogmática interpartes partidária, e com a miúda tem orientação algo ideológica, que mais serve à própria manutenção no poder. Transformam assim a voz do povo, na feudal voz de deus. É um absolutismo do avesso, o que deveria ser somente uma orientação.
Vão ter que me engolir é por demais presente em nossas relações sociais.

1 de jul. de 2016

A Igreja.

A Igreja.

Um incerto sábado, José Brancaleone, um mecânico bonfinense, decifrou uma imagem de Jesus Cristo numa fatia de berinjela. A imagem apareceu enquanto ele fatiava berinjelas para fazer à siciliana, que cada fim de semana preparava para a família e para homenagear seus antepassados sicilianos. A imagem lhe mudou o almoço e a vida.
“É o messias, sem dúvida” decretou sua mulher. Sobre a poupa branca, que já começava a se oxidar, se distingua a silhueta escura de um homem barbudo com os cabelos compridos. A sogra se benzeu três vezes. “Pode ser um cantor do tempo dos hippies, papai” disse um dos filhos. “ Ou um metaleiro” disse o outro. Mas a senhora Brancaleone tinha certeza, era um milagre, mas haviam de continuar com o preparo do almoço, a berinjela siciliana. “ O molho de tomate apagará a imagem” disse ela, “e o forno quente fará o resto”. Somou.
Durante o almoço, José estava incomodado, havia feito o mais correto? A família se divertia: “ Papai, hoje a berinjela siciliana está divina!”, A sogra vestiu seu véu, e comia como se estivesse comungado: “É pecado, mastigar” dizia. “A senhora não se confessou, Nona!” disse um dos filhos.
Tudo acabou em piada, mas alguém da família havia filmado a imagem na berinjela, e a postou no Facebook ou no Whatsapp e o vídeo bombou. No sábado seguinte uma dezena de pessoas, maior parte eram vizinhos, se concentraram à porta dos Brancaleones. “ Queremos ver Sr Brancaleone fatiar berinjelas sagradas” diziam. José se negou e expulsou aquela gentarada, “ Jesus expulsou os mercadores do templo” citou o evangelho a devota sogra. No sábado seguinte ajuntou mais gente, já eram fiéis, inclusive um jornalista do A Cidade com um fotógrafo. Queriam ver a aparição. José não deixou ninguém entrar, e os ameaçou a chamar-lhes a polícia.
Uma incerta manhã, apareceram à porta velas e oferendas de buquês de flores. E quando José ia para a oficina, foi se acostumando a tropeçar naquela gente ajoelhada. O dia todo se ouvia cânticos e o recitar dos salmos, e orações. Um pastor passou a orar uma vez por dia, e a miúde, um culto completo na semana. O mesmo pastor, quando os Brancaleone se mudaram dali, fundou a Igreja de José, vulgarmente chamada de Templo da Berinjela Siciliana.


Gregório de Matos

#vademecum

...
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Atribui-se a Gregório de Matos este poema. Somos instados a lê-lo e o temos lido como critica a uma situação colonial, mas não é uma critica aos fundamentos, ele se vale da convenção, dos limites preestabelecidos por uma convenção, que é a produção de sátira. É uma sátira que prevê a critica, nada de revolucionaria; critica esperada aos costumes, modos de vida e situações. O poeta que fazia sátira tinha que criticar. Como um crucifixo nos dias de hoje, não quer dizer que seu portador seja um cristão. A cultura letrada era então o manipular de convenções.
O séc 18 conhece Basílio da gama, Santa Rita Durão, Silva Alvarenga, Cláudio Manoel da Costa, Alvarenga Peixoto, Tomas Antônio Gonzaga, todos portugueses, manipulando convenções típicas de sua época. Não extrapolam os limites, reproduzindo a sociedade. Na inconfidência não se produziram inconfidências.
Não há ninguém à frente de seu tempo. Os gênios conseguem se expressar sintetizando coisas que o mundo oferece, o artista é talvez mais do seu tempo que todos os outros.
A logica constitutiva do império português é a diversidade em alguns eixos, populações diferentes, territórios diferentes, realidades diferentes integrando um governo à distância. O império é todo diversidade mas é português e é católico. Estruturas do império português são a monarquia e a igreja católica. Um rei e uma religião.
Por que a cultura letrada deveria seguir uma lógica discrepante? Há elementos específicos num império cheio de especificidades, são criticas esperadas, como em Cartas Chilenas. Não se critica o alto escalão, mas seus representantes, e o representante ao final é aquele que não honrou o Rei. Se o governador é ruim, mata-se o mal governo, para preservar e fortalecer a autoridade máxima. João Adolfo Hansen. Suposta brasilidade. Antônio Cândido. A formação da literatura brasileira. Sérgio Buarque as voltas com antecipação de um Brasil, via letras, parte de um mundo mais amplo. Antônio Cândido propõe que a brasilidade deve ser trocada pela formação da brasilidade, pois está em formação a literatura brasileira em formação.
Formação do Brasil contemporâneo, se forma no passado, a colonização dá feições, constituição a largo prazo.
A poesia do séc 18 é portuguesa eivada de especificidades da colônia. Vocabulário, dicção etc, onde a sociedade estamental, colonial e escravista, não elimina a matriz europeia, prolongamento de manifestação do império sem ser o império.
Assim leviano como sou, digo que criticar a democracia via partidos é criticar o chumbo ou o colt não quem puxa o gatilho, são repertórios do capitalismo. Problemas do capitalismo.

Tolstoi e a Copa

Tolstoi e a Copa.

Durante a Copa posso usar o tempo do jeito que desejo.  A leitura de clássicos me cai como uma luva, porque para encarar textos de 1500 páginas, este é um tempo ideal, tem que ser assim um pouco obcecado e gostar de superação pessoal, comparo acabar um livro desse calibre  a chegar ao topo de uma montanha, a montanha da vida. E mais, se manter ali no topo, porque com a literatura não há cabaninhas a meio do caminho, com fogueirinha e café quente, quando se chega ao topo, lá se fica... colado com clara seca de ovo... Guerra e Paz... Tolstoi... quinze capítulos... dois epílogos... um horizonte avermelhado de agosto em julho.... primeira leitura... temeroso... sem devoção.... aqui estou... diante de uma precisa metáfora essencial de mim... grandes intenções, ideias ambiciosas... e a Copa é ímã...e... sou ferro... Enquanto isso viajo na maionese, no tempo, no dia que acabei de ler, uma leitura rápida, como a volta para casa de um embriagado, que se esquece o caminho percorrido, mas não será problema de fundo ou de forma, bastará que releia, e se não bastar, outras vezes em outras línguas, e com essa obsessão, sei que uma grande obra aguenta todas  elas, suas culturas e vieses, mas se preciso for, o farei no original.... isso  será a extrema grandeza...